Capítulo sessenta e oito – A história da história de Joana

sábado, 12 abril 2008 § 8 Comentários

Joana queria contar uma história. Mas tinha que ser uma história total. Uma história que fosse absolutamente real. Uma história absurda, que envolvesse completamente, que não existisse somente no papel, na cabeça, onde quer que fosse.

E os personagens tinham que ser completos. Deviam amar, odiar, se entediar, deviam comer, beber, respirar. Não podiam ser personagens planos, deviam ser complexos, cheios de dúvidas, contradições, ideologias, idéias e defeitos.

Joana queria contar uma história. E não podia faltar nenhum detalhe, a cor do cabelo de cada um, o ano do carro, a marca da geladeira, a tinta descascando na parede, o número dos telefones, os nomes das ruas, a temperatura ao longo dos dias, o tempo que se demorava pra ir de um lugar ao outro, o tom de azul do céu, o tom de verde do mar, quais espécies de animais habitavam cada lugar, cada estrela que nasceu desde que o universo começou. Tudo isso Joana queria contar.

Naquele dia, Joana parou de contar histórias e foi viver a vida.

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Capítulo sessenta e sete – Ladainha

domingo, 20 janeiro 2008 § 7 Comentários

É sempre onde menos se espera que se encontra o que não se quer. Minha obsessão por ser diferente tem me afastado cada vez mais e mais e mais e mais das pessoas. Os diferentes envelhecem e querem ser iguais a todo mundo. Querem ser iguais ao que já são. Há segurança em não precisar mudar. Há tédio.

E eu que já sou velho demais pra me meter com adolescentes. Já não tenho mais paciência. Nunca tive paciência, só tenho preguiça. Isso eu tenho de sobra. Mas sempre confundi preguiça com paciência.

O dia-a-dia não me interessa. O fora-do-cotidiano não me interessa. Não quero saber das grandes questões do universo, não quero saber o preço do feijão. Quero me refugiar na ficção. Quero mentiras, quero inventar, quero não querer. O que eu não tenho devia parecer interessante. A grama do vizinho morreu faz tempo. O vizinho é que teima em viver.

Meu vizinho um dia acordou morando em outra cidade. Fato que claramente causou uma baita confusão. Como posso chamar de vizinho alguém que mora em outra cidade? Deveria eu mudar de cidade também? Deveria deixar de chamá-lo de vizinho? Mudar esse antigo hábito?

Tomei o ônibus e desloquei-me até a cidade vizinha pra falar com meu vizinho. Ele não fazia idéia de como se deu essa mudança, mas que até gostava da nova vizinhança. Tentei fazer com que ele visse meu lado. Era justo que continuasse morando do meu lado, depois de tantos anos. E aquela vez que te emprestei açúcar? Quando você foi viajar, alimentei os peixeis do seu aquário. Nunca botei o olho na sua mulher. Nossos filhos brincariam juntos um dia. Nossa casa é geminada, sei de segredos seus, sei da sua índole, seus hábitos, a cor do seu roupão. Não posso ter um vizinho novo. Aprendi a gostar de música clássica ouvindo os seus discos, que você tocava aos domingos de tarde, enquanto eu tentava dormir. Me separo da minha mulher, mas de você não saio do lado. Você é o meu outro, é através dos seus olhos que entendo metade do mundo. Foi com você que aprendi a ser tolerante com quem não é eu mesmo.

Meu vizinho me olhou assustado aquela manhã.

Capítulo Sessenta e Seis – Tudo bem

terça-feira, 16 outubro 2007 § 1 comentário

Ela parou na beira da calçada, os olhos fitando o nada. A avenida movimentada.
Do outro lado da rua, o homenzinho vermelho se impunha, a pose ereta, quase militar, ordenando que todo mundo continuasse parado. Ela baixou os olhos, acostumados a ver o chão. O cadarço desamarrado.
Com muito esforço ela se abaixou para amarrá-los. E as outras pessoas começaram a andar. Ela levantou a cabeça; o homenzinho vermelho tinha ficado verde. É preciso se mover, é preciso andar, é preciso não ficar parado. E os carros faziam barulho, impacientes. A larga avenida à frente e ela ali parada. O homenzinho verde a incentivando a se mexer. Talvez ninguém nunca a tivesse incentivado antes, talvez ela nunca tivesse prestado atenção. Sentiu vontade de sair correndo. O cadarço amarrado, a larga avenida vazia por uns segundos. E correu.

Ela nunca se sentiu tão livre na vida. Ou talvez nunca tenha dado atenção à sua liberdade. O vento na cara, os pés quase não tocavam o chão.
Os carros agoram corriam ao lado dela e buzinavam e gritavam “louca, louca” e xingavam, se assustavam. Era fim de tarde e o sol já tinha sumido atrás dos prédios. Correr. Correr e atrapalhar a vida dos outros. Isso era liberdade.

Já perto da esquina, ela ouviu sinos. Sinos de glória, sinos de vitória. Ou sinos da igreja marcando as seis horas?
Tarde demais ela percebeu que não eram sinos. Eram sirenes. Uma sirene. Ambulância. Vinda da outra rua, acertou ela em cheio quando cruzava a esquina, correndo. Voou até a calçada, batendo forte contra um muro. E que ambulância haveria de adivinhar uma maluca correndo às seis da tarde? (Eram mesmo seis da tarde? O sol se escondia atrás dos prédios.)
E a ambulância nem parou. Quem quer que estivesse morrendo sacudindo dentro da ambulância, provavelmente estava morrendo mais que ela. Ela nunca se sentiu tão viva em toda a vida, a cara sangrando, o corpo doendo.

Alguém haveria de se apiedar da cena patética. E se não, tudo bem. Quem precisa viver mais de uma vez na vida?

Capítulo Sessenta e Cinco – Gentileza

segunda-feira, 12 março 2007 § Deixe um comentário

Às seis horas da tarde o ônibus sacolejava no sentido bairro. Já pelo meio do caminho, algumas pessoas em pé, uma senhora de sessenta e poucos anos estica o braço no ponto, forçando o coletivo a atrasar mais alguns instantes sua obstinada viagem. Degrau, degrau, degrau e um rapazote muito solícito se prontifica a ceder seu lugar num dos bancos para a pobre velhota, que docemente recusa.
-Já vou descer daqui a pouco.
Mas o rapazote vê nos olhos da velhota o quanto ela está cansada de um dia exaustivo.
-Não, pode sentar.
A senhora se comove com a gentileza do rapaz, mas recusa novamente a oferta.
-Eu não tô cansada, não. Pode ficar.
O rapaz, que é novo, mas não é alheio às dores alheias, vê lá no fundo dos olhos da velha o quanto ela está cansada de uma vida exaustiva.
-Mas eu faço questão!
A senhora, que nunca gostou muito de contrariar as pessoas, especialmente as pessoas que ela não conhece, até aceitaria sentar-se, se não tivesse que se levantar um ponto depois.
-Mas eu já vou descer!
-Mas a senhora disse isso a dois pontos atrás!
-Pois então, vou descer no próximo.
A essa altura, o rapaz já estava de pé, ao lado da senhora, que se recusava a se sentar. Atrás dos dois, um senhor de meia-idade olhava para o banco vazio, cansado depois de um dia de trabalho de pé na cozinha de um hospital.
-Olha minha senhora, por acaso você tem nojo de mim?
-Como é que é?
-Por que a senhora se recusa tão veementemente a se sentar no banco onde eu estava sentado?
-Nojo de você? Eu acho que você tá é meio maluco.
O rapaz agarra então o braço da velha. Gentilmente.
-Pois agora a senhora vai se sentar aqui!
-Me larga, seu doido!
O incidente, que já havia chamado a atenção de todos os passageiros, do cobrador, do motorista e até de um homem no caminhão ao lado, dividiu a opinião dos presentes.
-Deixa ela, rapaz. A senhora não quer sentar!
-Mas o rapaz só tava querendo ser educado! Custava ela aceitar?
E a velha tentando se soltar.
-Olha aí! Perdi meu ponto! Motorista! Motorista! Vou descer!
-Pois se a senhora vai descer, eu também vou! Quero ver se esse ponto é o seu ponto mesmo.
-Que isso? Vai me seguir agora?
E o motorista irritado.
-Eu não posso ficar aqui o dia inteiro esperando!
O rapaz puxa a velha pelo braço, forçando-a escada abaixo. A velha tropeça, cai no chão, levando o rapaz junto, os dois rolando até o meio-fio.
-Chama uma ambulância!
-Ah, agora vão levar ela pro hospital. Só pra disfarçar, por que eu sei que aqui não é o ponto dela. Não precisa, não. Ela que pegue o próximo ônibus.
O rapaz sobe no ônibus, senta-se no mesmo banco de antes. Olha para uma estudante, assustada com o que acabou de acontecer.
-Quer que eu carregue seu caderno?

Capítulo Sessenta e Quatro – Histórias desinteressantes

sexta-feira, 15 setembro 2006 § Deixe um comentário

-E aí eu derramei molho na barra da minha saia e nem vi.
-E você saiu assim?
-Pois é. E um cara lindo veio falar comigo.
-E ele viu a mancha!
-Não.
-Que bom, hein. Alguém viu?
-Não. Quando eu cheguei em casa, fui correndo trocar de roupa e tirar aquela mancha.
-E daí?


-Minha mulher disse que tava ouvindo uns barulhos estranhos na sala e mandou eu ir ver o que era. Peguei uma vassoura que tava no corredor e fui lá.
-E tinha um ladrão?
-Não. Daí eu pensei: deve ser um rato. Dos grandes.
-E tinha um rato?
-Não, não tinha nada.
-Nada?
-Nada. Minha mulher imaginou.
-Ah.


-Você não sabe da melhor: outro dia eu encontrei o Cid Moreira na rua!
-E falou com ele?
-Eu gritei: Cid! Cid!
-E ele veio falar com você?
-Não, nem me ouviu.
-E não correu atrás dele?
-Eu não. Correr atrás do Cid Moreira? Por favor… 

Capítulo Sessenta e Três – Pedro Hélio, a barata da caixa de fósforos

sábado, 30 julho 2005 § 1 comentário

Pedro Hélio era uma barata macho que vivia numa caixa de fósforos. Apesar de ser uma barata de respeito, cumpridora da lei e da ordem, era meio cabeça-quente. Quase sempre se metia em alguma briga e quase sempre se arrependia depois. Também pudera, era motivo de chacota entre os seus amigos só por que, veja você, morava numa caixa de fósforos!
-Cuidado pra sua casa não pegar fogo! – dizia a barata Martins, que morava dentro do ralo do banheiro.
-O médico disse que o Pedro Hélio precisava de vitaminas, mas ele não quis destruir a casa dele! – brincava a barata Lopes, que era hipocondríaca.
-É. – concordava sempre a barata Figueira, que não era uma barata de opinião.

Mas Pedro Hélio não tinha outra escolha. Além do mais, já tinha se acostumado a viver ali. A sua casa de caixa de fósforos era toda decorada com cores quentes e num canto havia uma cama feita de palitos. Ele era uma barata feliz até. Mas sentia falta de alguém para aquecer as noites frias.

Paula Helena era uma garota quente. Digo, uma barata quente. Uma barata fêmea de fazer qualquer um perder a cabeça. Pedro Hélio a conheceu num clube noturno, o “Fiat Lux Jass Club”. Ele costumava tocar saxofone com a sua banda aos domingos. Paula Helena curtiu o som e foi falar com Pedro Hélio depois do show.
-Tens fogo? – perguntou ela com um cigarro na mão.
Combinaram de passear no parque numa quarta-feira à tarde. Era um dia ensolarado de piquenique. Disfarçado de formiga-operária-padrão, Pedro Hélio roubou um quindim de uma cesta alheia. Paula Helena se apaixonou. Marcaram suas inicias dentro de um coração no tronco de um pau-brasil.

“Você incendeia meu coração”, escrevia ele nas poesias de amor que fazia para ela. Era verão. Paula Helena se mudou para a casa de caixa de fósforos. E tiveram filhos e a casa ficou pequena. Pedro Hélio, agora pai de família, arranjou um emprego no corpo de bombeiros e eles puderam se mudar para uma caixa de sapatos no canto do quarto onde o sol bate todas as manhãs e ninguém mais desrespeita o Pedro Hélio.

Dizem à boca-pequena que a paixão dos dois já esfriou. Mas isso eu não sei se é verdade. 

Capítulo Sessenta e Dois – Duas ou três brigas de um casal no início do relacionamento

domingo, 30 janeiro 2005 § Deixe um comentário

-Mas por que você não quer conhecer a minha vó?
-Não é que eu não queira, é que eu já tinha prometido à Renatinha ir almoçar com ela hoje.
-Mas vocês se vêem todos os dias, podia ficar um dia longe dela…
-Pôxa, ela acabou de terminar o namoro, coitada! Ela não quer ficar sozinha…
-Se ela precisasse tanto assim de companhia, não tinha terminado o namoro…
-Mas ele era um canalha!
-Bom, ela podia tentar achar um outro cara. Podia ser hoje, que tal?
-Num domingo à tarde?
-Ela podia, sei lá, ir num parque, levar o cachorro pra passear. Pode dar certo…
-Mas ela nem tem cachorro!
-Eu empresto o Brutus.
-Aquele monstro vai é espantar os pretendentes…
-Pro seu governo, o Brutus nunca atacou ninguém, tá?
-Não adianta, eu não vou deixar de almoçar com ela. Domingo que vem a gente vai almoçar com a sua vó.
-Mas eu já avisei a vovó que ia te apresentar a ela. Coitada, vai ficar tão desapontada…
-Pois você devia ter me consultado antes.
-Consultar? Eu só disse que ia almoçar com a minha vó, não comprei uma casa no nosso nome!
-Pois eu não vou e pronto! Tá rindo do quê?
-Nada não…
-Fala, vai! Tá rindo do quê?
-É que essa é a nossa primeira briga…
-E que tem de engraçado nisso?
-Nada, só achei bonitinho…
-Bonitinho, é?
-É, e você fica linda quando fica nervosa… Olha aí, tá rindo também…
-Você é um bobo, sabia?
(beijos, beijos, beijos)
-Sabe de uma coisa?
-O quê?
-E se a gente ficasse aqui?
-Nada de almoço?
-Nem de avós, nem de amigas…
(mais beijos…)

***

-Vamos logo ou a gente vai se atrasar!
-Só estou terminando de me maquiar!
-Maquiar? A gente só vai no cinema!
-E só por isso eu preciso sair feia?
-Feia? Você é linda de qualquer jeito, com maquiagem ou sem.
-Sei, tá dizendo isso só pra eu ir logo…
-É verdade. Você é um dragão e eu só tô com você pela fortuna da sua família.
-Que fortuna?
-Eu tava só brincando… agora vê se termina logo de se arrumar.
-Já tô terminando. E se a gente chegar um pouquinho atrasados, qual o problema? Eles sempre passam aqueles trailers intermináveis antes do filme…
-É, mas daí a gente não vai conseguir um bom lugar…
-Um bom lugar pra que? A gente vai no cinema e não vê o filme mesmo…
-E você acha ruim?
-Não é que eu ache ruim… mas se for pra ficar namorando, a gente podia ficar em casa mesmo…
-Mas no cinema é mais gostoso… além do mais o filme que a gente vai ver hoje parece ser bom, a gente pode até assistir…
-Sei não… da última vez que você falou que o filme parecia bom…
-Ah, vai… até que era bom…
-Você dormiu no meio do filme!
-Dormi nada! E você já terminou de se maquiar?
-Já, agora só falta eu escolher um sapato.
-Ai, não! A gente não vai sair daqui nunca!
-Pelo menos eu não saio toda desarrumada que nem você.
-Eu? Mas eu tô arrumado!
-Ah, é? E essa camisa toda amassada?
-Ela tava passada, mas você demora tanto que eu me sentei e aí ela amassou…
-E esse tênis velho? Qual a desculpa?
-Eu gosto dele, tá? Mas que implicância com as minhas roupas!
-Você que começou a implicar comigo! Tá rindo do que de novo? Toda a vez que a gemte briga você começa a dar risada?
-E que essa é a nossa segunda briga…
-É nada…
-Claro que é!
-E aquela no supermercado por causa do pão integral?
-Aquilo nem foi uma briga direito…
-Claro que foi! Você ficou uma semana reclamando ainda por causa do tal do pão!
-Também, era ruim igual não sei o quê! Nem você gostou…
-É, mas um dia você vai me agradecer por estar bem de saúde.
-Se for pra continuar comendo essas coisas horríveis, prefiro morrer logo…
-Aí, tá vendo? Continua brigando por causa do pão!
-E você continua linda quando fica nervosa…
-Ah, nem vem com esse papo pra cima de mim, não!
-Ah, é assim? Eu te elogio e você acha ruim? Quer saber, até perdi a vontade ir ao cinema! O filme já deve ter começado mesmo…
-Então não vá, oras! Eu vou sozinha!
-Por mim! Não tô nem aí! Ei, isso dói!
-Ai, me solta!
(sexo selvagem…) 

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