Capítulo setenta e quatro – Transitoriedade

terça-feira, 27 abril 2010 § 4 Comentários

A loja ainda sustentava a velha placa amarelada dos tempos em que ainda era uma das maiores do ramo de calçados. Mas todos os donos que por ali passaram nunca se preocuparam em modernizar o estabelecimento, nem mesmo quando as vendas começaram a cair, perdendo clientes para as vizinhas que estavam sempre em sintonia com o mundo da moda. E nem mesmo quando tiveram que vender parte do imóvel para saldar dívidas.

Agora o lugar tinha um terço do tamanho original. E apenas um funcionário, que não tinha muito trabalho a fazer com tão pouco movimento.  Somente alguns clientes mais antigos ou interessados em alguma rara promoção ainda freqüentavam o local.

Foi numa dessas tardes de verão, de muito sol e poucas pessoas nas ruas do centro da cidade, que uma mulher, interessada em um sapato barato na vitrine empoeirada, entrou na loja, sendo muito bem atendida pelo funcionário entediado. Ela mostrou-lhe o modelo da vitrine em que estava interessada. Disse também que calçava o número trinta e sete.

O vendedor foi até os fundos da loja e voltou uns cincos minutos depois com a caixa na mão. Ao provar, ela notou que o sapato ficou ligeiramente folgado:

– É melhor tentar um trinta e seis.

Foi novamente buscar outro par de sapatos. Foi sem pressa, afinal não era como os outros vendedores que corriam para atender vários clientes.

– Aqui está o trinta e seis.

Aquele par também ficou grande:

– Tem certeza que esse é trinta e seis?

– É o que diz na caixa – ele não tinha lá muita experiência com sapatos.

– Estranho, sempre usei o trinta e sete.

– Às vezes a forma é grande mesmo.

– Bom, então traz um trinta e cinco mesmo.

Na dúvida ele trouxe um trinta e quatro também. Afinal, sapato é o que não faltava ali.

Mas mesmo o trinta e quatro ficou grande. Intrigada ela começou a olhar os próprios pés e, para sua surpresa, eles estavam diminuindo! Tentou se levantar, mas caiu. Os pés tinham sumido de vez. E o mesmo parecia acontecer com as pernas:

– Ai, meu deus, o que está acontecendo?!

O funcionário não sabia o que fazer. Pensou em chamar o gerente, mas ele nunca estava na loja. E a mulher continuava a sumir. Cada vez mais rápido, já não tinha mais joelhos.

– Socorro! Eu estou sumindo!

– Calma, não deve ser nada. Daqui a pouco passa.

– Passa o quê?!

Ele não sabia. Pensou em levantá-la, mas ficou com medo de que aquilo fosse contagioso.

– Espera aí que eu vou chamar ajuda.

– E vai me deixar sozinha?

– É rapidinho. Não saia daí. – disse sem se dar conta de que a mulher não poderia ir a lugar nenhum.

Na rua não encontrou ninguém. Mas também se encontrasse o que diria? “Olha, dentro da loja tem uma mulher sumindo”? E o que ele poderia fazer? A mulher já teria desaparecido de vez quando chegassem ao hospital.

De repente os gritos pararam. Ele conseguiu correr apenas a tempo de ver o último fio de cabelo sumir. Ficou ali parado, observando perplexo as roupas que sobraram da mulher, tentando entender o que aconteceu.

Ele ficou pensando que aquilo foi algo realmente estranho. O que era de certa forma bom, já que nada acontecia de interessante por ali mesmo.

Finalmente juntou as peças do chão e jogou no lixo. Se alguém aparecesse não ia acreditar numa história tão absurda mesmo. E se fosse um cliente ainda podia achar que a loja era uma bagunça. E naquela situação não podia arriscar-se a perder nenhum cliente.

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