Capítulo setenta e três – Idéias mutantes

segunda-feira, 12 abril 2010 § 1 comentário

Leninha teve uma idéia naquela manhã enquanto sacolejava no ônibus lotado. Uma idéia das boas, dessas simples, mas que resolvem um monte de problemas. Talvez fosse difícil convencer outras pessoas ajudá-la a por a idéia em prática, mas ela tinha que arriscar. Teve vontade de pular de felicidade e contar logo a sua idéia para alguém, mas apenas sorriu, discretamente. Era um dia frio de chuva fina. Uma idéia é a coisa mais efêmera que existe. Qualquer distração e… puf! Lá se foi a idéia. Por isso Leninha ficou repetindo e repetindo a idéia na sua cabeça até poder anotá-la. Mas a cada vez, ela mudava. Às vezes ficava melhor, às vezes, pior. Leninha já estava ficando aflita, não entendia por que não tinha controle sobre a própria idéia. O seu cérebro lhe enganava. Pela primeira vez na vida, sentiu que estava ficando velha. Assim que desceu do ônibus, Leninha se apressou a abrir a bolsa e pegar uma caneta e o primeiro pedaço de papel que conseguiu achar. Escreveu freneticamente, mas as palavras saíam diferente do que ela queria. A sua idéia já não fazia sentido nenhum. Poucas vezes se viu alguém tão decepcionado e sozinho no mundo. Ao chegar na empresa, quase todo mundo estava meio apático, meio sem vontade de falar com ninguém. Ligou o computador como fazia todos os dias e foi ler as últimas notícias. Jogador de futebol vira cantor sem querer. Estranho. Continuou a ler. Em entrevista concedida essa manhã na Espanha, famoso jogador de futebol anunciou que iria se tornar cantor contra a sua própria vontade. Alegou ter a idéia durante a madrugada e, sem saber porque, achou que deveria seguí-la. Assim que terminou de ler a notícia e antes de ter tempo de entender o que estava acontecendo, Leninha foi surpreendida por um colega dizendo que o chefe decretara que aquele dia era o dia nacional do palito verde e mandou todo mundo pra casa. Leninha tentou ficar feliz, mas o que iria fazer em casa? Resolveu ir jogar fliperama. Merda de idéia, ela não suportava todos aqueles barulhos de videogame e aqueles adolescentes brigando por causa de um jogo. Por sorte o lugar estava vazio, já que o dono teve a idéia de cobrar muito mais caro pra ganhar muito mais dinheiro. A atendente assistia a uma pequena televisão e Leninha resolveu assistir também. Um deputado, conhecido por suas idéias liberais, quase foi linchado por propor que exterminassem os mendigos, os ladrões e as prostitutas. Pedia desculpas incessantemente. Um grupo de ecologistas resolveu queimar uma árvore centenária pra pular fogueira. E nem era junho. O apresentador do noticiário estava nu. Mulheres nuas no Afeganistão pulavam carnaval. O papa se converteu ao budismo. O presidente americano fora preso tentando atravessar a fronteira para chegar no México. Crianças japonesas brincavam de amarelinha. Assim que o programa acabou, começou uma emocionante transmissão de duas horas de duração do aquário da sala do dono da emissora. Ao vivo. Leninha estava mais confusa do que nunca. Por que as idéias estavam se rebelando contra a humanidade? Aquilo que sempre fora o que os homens tinham de melhor, agora os fazia parecer animais idiotas. Ela foi pra casa. Por um caminho muito mais demorado do que o usual. Ao chegar em casa, perto das onze horas, o filho tinha acabado de acordar. Justo ele, que era rapaz trabalhador e sempre acordava cedo. Leninha então contou o que estava acontecendo. Ele achou que a mãe tava ficando maluca. Ela até ligou a tv e o rádio pra provar que não, mas a programação não fazia sentido nenhum. Em todo o caso, o filho, que era escritor, achou que aquela história fantástica daria um bom conto. Sentou e começou a escrever. Estava indo bem, tinha até pensado num final sensacional, mas quando foi escrever o final, o peixe começou a ficar azul e todo aquele que blasfemava contra o telefone sagrado tinha que comer o ovo frito. André subiu até o alto do morro e avistou aquilo que poderia se chamar de avião. Por caminhos tortuosos, continuou a fazer aquilo que sempre fizera:  . Era o terror. Ana já não sabia se devia ou não se casar. Vivia infeliz pra sempre. O mundo devia explodir. Siga em frente a direita e volte. Antes.

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