Capítulo setenta e dois – Tá tudo errado

quarta-feira, 7 abril 2010 § 2 Comentários

06:15

Percival sonhava que estava numa ambulância quando o despertador tocou. Ou talvez essas duas coisas tenham sido simultâneas – o sonho e o despertador – pois ele demorou pra acordar justamente por que o barulho do despertador parecia a sirene da ambulância do seu sonho. Olhou para o lado e não viu ninguém para contar o sonho.

06:17

Foi enquanto escovava os dentes que Percival teve a revelação: estava tudo errado. Tudo na sua vida foi e ainda era um erro, a começar pela escova de dentes que não alcançava o fundo da sua boca. E a escova anterior era grande demais e machucava o fundo da boca.

07:03

Passou na farmácia querendo comprar uma escova do tamanho certo, mas todas estavam embaladas, portanto não dava pra testá-las. Abriu uma por uma e enfiou na boca até achar a escova certa, apesar dos protestos do atendente.

07:16

De volta à sua casa, largou a nota em cima da mesa (R$57,65 pelas escovas de dente) e foi escovar os dentes demoradamente, apesar de já estar atrasado para o trabalho. Ele odiava ter que entrar todos os dias às oito horas em ponto. Odiava ainda mais ter que ficar 38 minutos dentro do ônibus e mais uns tantos minutos esperando no ponto o maldito ônibus que nunca passava no mesmo horário.

08:00

Na empresa nem sinal do Percival, funcionário do mês como estava escrito embaixo da sua foto na parede.

08:24

Na cozinha, Percival estava tomando o café da manhã, o que não costumava fazer. Mas assim teria uma desculpa pra usar mais uma vez sua escova de dentes nova.

08:45

Percival acabou de decidir que hoje não vai trabalhar. Talvez nunca mais vá.

09:23

Na praça as pessoas estranham o homem balançando no lugar das habituais crianças. É Percival, que tem um pirulito na boca. Deve ter roubado de alguma garotinha. Quando uma das mães vem reclamar com ele, Percival dá um grito e sai correndo. Percival não é mais o mesmo.

10:10

Percival espera 10 segundos olhando o relógio de pulso.

10:10.10 marca o relógio e ele fica feliz. Ajusta o alarme para 11:11.

10:17

Percival liga para a mãe. Quando ela atende, ele diz “você não manda mais em mim”, dá uma gargalhada e desliga. Sempre teve vontade de fazer isso desde que saiu de casa aos 23 anos. Percival tem 37 agora, é o que diz sua carteira de identidade.

10:22

Percival cansa da brincadeira e vai consertar as coisas que acha que estão erradas na sua vida. Tá tudo errado, repete pra si mesmo constantemente.

10:36

Primeiro passou no apartamento da vizinha do prédio ao lado, que ficava sempre limpando a casa e se exibindo pra todo mundo com as poucas roupas que usava e a janela sempre aberta. Apertou a campainha e deu um beijo nela quando ela atendeu. Depois, quando ela ainda estava tentando entender, deu um tapa na sua cara e a chamou de vagabunda.

10:48

Passou na padaria da esquina, entrou com tudo na cozinha e desligou o forno com os pães antes que alguém pudesse fazer alguma coisa. “Eu odeio meus pães tostados”.

10:55

Passou na banca, comprou o classificado de empregos e o deu ao mendigo que todos os dias o importunava pedindo alguma coisa. “É a última coisa que te dou”.

11:09

Entrou no prédio em que ficava a rádio pirata que atrapalhava o sinal da sua rádio preferida. Foi até o telhado e estragou a antena com o martelo que havia comprado na loja de ferramentas um pouco antes.

11:11

Ainda no topo do prédio, o alarme do seu relógio de pulso soou. Olhou até 11:11.11 e ficou feliz de novo. Dessa vez mais feliz por que se ele olhasse de trás pra frente veria a mesma hora.

11:16

Foi até o ponto e ficou esperando com ansiedade o ônibus que pegava todo dia, mas agora era uma ansiedade de coisa boa.

11:31

O ônibus chegou. Mas ele não fez nada com o motorista por que aquele não era o mesmo motorista que passava por volta das sete e vinte e cinco. Uma pena.

12:09

Desceu do ônibus pensando no que faria na empresa. Tinha ótimas idéias.

12:13

Virou a esquina e parou na beira da calçada esperando o momento de atravessar a avenida movimentada. Foi o primeiro momento que ele teve, desde a dita revelação naquela mesma manhã, pra pensar em tudo que tinha feito até agora. Do outro lado da avenida estava a empresa.

12:16

Três minutos esperando e o farol não fechava. Os carros não paravam de passar. Percival, que há muito tempo já tinha perdido a paciência, resolve atravessar a qualquer custo. Na primeira brecha que apareceu – e que ninguém de bom senso se arriscaria a aproveitar – ele começou sua marcha em direção ao outro lado da rua. Todos os automóveis passavam desviando e buzinando e xingando aquele pedestre maluco.

Menos um.

Esse não xingou, não buzinou, não viu e não desviou.

12:24

Na ambulância, Percival não queria pensar em nada. Tinha medo de se arrepender de tudo o que tinha feito naquela manhã. Tinha medo de imaginar que o atropelamento podia ter sido uma espécie de castigo divino por ter renegado a sua boa vida de trabalhador honesto.

Adormeceu sonhando que a sirene – que gritava alto lá fora pedindo passagem – era na verdade o barulho do despertador chamando pra mais um dia de trabalho. Trabalho digno que o levaria, enfim, à sua completa redenção.

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