Capítulo sessenta e nove – Hábito

terça-feira, 23 março 2010 § 1 comentário

Ele saiu do banheiro, entrou no quarto e encontrou-a deitada no lado esquerdo da cama, já completamente levada pelos sonhos que sonhava dentro da cabeça que estava apoiada no travesseiro. Mas não foi o fato de já estar dormindo que o espantou – havia mesmo demorado no banheiro, entretido com uma reportagem na revista – e sim o fato de ela estar no lado esquerdo da cama.

Dezessete anos. A vida é curta demais para as coisas que deixamos de fazer, longa demais pra aguentar a rotina diária. Dezessete anos não foram nada para o rapaz que não vê a hora de poder dirigir, terminar a escola, comprar cigarro, frequentar um lupanar, ser dispensado do serviço militar. Dezessete anos num mesmo emprego podem ser uma eternidade entediante. Em dezessete anos de casamento, não há nada que não se saiba um do outro – quanto tempo leva pra tomar banho, qual a hora preferida do dia para usar o banheiro, a localização exata de cada mancha na pele, doenças, alergias, vergonhas da infância, a cara que faz quando se preocupa à toa com os filhos, a quantidade exata de sal necessária na pipoca e o lado da cama que dorme.

Alguém já disse (muita gente já deve ter dito, provavelmente) que as pessoas não mudam de hábitos com a mesma facilidade que mudam a cor do cabelo. Por que ela mudou de lado na cama depois de dezessete anos de casamento? Não que os dois tenham jamais combinado qualquer coisa a esse respeito, mas sempre foi assim. E ninguém enjoa de uma coisa depois de dezessete anos, enjoa depois de dezessete dias, dezessete semanas, talvez. Ele não pensou em acordá-la só para perguntar o motivo. Talvez ela estivesse com dor no braço direito. Mas se estivesse, por que não disse? Perguntaria o motivo pela manhã e o problema estava resolvido. Pronto, agora era só dormir e esperar o café da manhã. Alguém já disse que as pessoas não mudam de hábitos com a mesma facilidade que mudam sua opinião sobre o seu filme favorito de todos os tempos.

Meu deus, eu já achei que Tubarão era o melhor filme do mundo! Fui ver Blade Runner quatro vezes no cinema! Agora não sei se prefiro O Poderoso Chefão ou A Lista de Schindler. Acho que tô ficando velho, só gosto de filme de velho. E como é que ela pode achar que Beleza Americana é um ótimo filme?

Tudo isso ele pensava por que não conseguia dormir do lado direito da cama – se virava pro lado direito, não conseguia achar um jeito confortável de deixar o braço direito, se virava pro lado esquerdo, não conseguia respirar direito por causa do cabelo dela muito perto do seu rosto. Levantou e foi fazer um chá.

Ele gostava mais de chá preto, mas a cafeína não ia ajudar em nada a essa hora da madrugada. Fez chá de camomila, que era o preferido dela. Ficou pensando se não havia alguma outra coisa que ela tinha mudado e ele não tinha percebido. Será que essa mudança era um sinal de que ela estava mudando ou queria mudar? Talvez fosse o primeiro sinal de muitos. E em alguns meses, ela o acusaria de ser sempre o mesmo, de nunca fazer nada diferente, de ser o tédio, o velho representando a tradição estúpida, um reacionário. Ele a acusaria de ter outro, de ter vários, de ser promíscua, inconstante, imatura, querendo ser jovem e inconsequente depois de velha. Seria um fim triste para um casamento que se não foi belo, foi pelo menos normal. O chá já tinha esfriado mais que o pé dele. Despejou o chá na pia e decidiu esquentar o pé no lado direito da cama, pois já passava das duas horas.

No quarto, ela tinha voltado para o lado direito.

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