Capítulo setenta – O quinto poder

terça-feira, 23 março 2010 § 1 comentário

Naquela época eu tinha mudado de emprego, de casa, de bairro, ainda não conhecia muita gente e o contato com os velhos amigos se tornava cada vez mais escasso, por causa da distância e da falta de assunto. Assistir televisão era praticamente a única coisa que eu fazia no meu horário livre e aos fins de semana eu costumava visitar minha mãe, com quem eu reclamava do tédio que eu tinha durante meus horários inúteis dos dias úteis. Meu aniversário logo chegou e minha mãe me deu de presente a assinatura de uma dessas revistas de curiosidades. A idéia não foi ruim, mas a revista me entreteve por apenas dois dias. Pensei então em assinar um jornal pra poder ler todos os dias e talvez alguma outra revista. Tudo isso me manteria, eu esperava, longe do tédio por muito tempo e eu comecei a acordar mais cedo para poder ler o jornal enquanto tomava o café da manhã.

Em poucos dias, os jornais começaram a se acumular em uma pilha no canto da minha pequena sala, aumentando cada dia mais. Havia um velho que frequentemente passava pela minha rua juntando todo tipo de coisas velhas para reciclar, então pensei em dar a pilha de jornais para ele vender, mas ele não quis, disse que jornal dá muito trabalho de carregar e pouco dinheiro. Quase considerei jogar tudo no lixo mesmo, mas um caderno especial sobre reciclagem e aquecimento global me fez logo desistir da idéia. Se eu tivesse um carro, eu mesmo levava para reciclar.

Eu tinha agora duas pilhas de jornais junto com algumas revistas, que se fossem uma pilha só, seria certamente uma pilha mais alta que eu, mas é difícil equilibrar uma pilha de jornais desse tamanho e eu me recusava a me sentir oprimido por um monte de notícias velhas. Ainda era eu que mandava ali, por isso resolvi dar um fim de uma vez por todas naquela situação. Liguei para cancelar minha assinatura do jornal e com o dinheiro que eu ia economizar todo mês poderia pagar as parcelas de um computador. Iria ler todos os jornais que eu quisesse e quando terminasse, não haveria nenhuma pilha de papel.

Os jornais, no entanto, continuaram a vir. A moça me disse que minha assinatura estava cancelada, devia ser algum engano e que nada seria cobrado. Mas eu não me incomodava com a cobrança, eu até pagaria pra não ter mais jornais. Os jornais, no entanto, continuaram a vir. Pensei em acordar cedo pra falar com o entregador, mas ele passou de moto tão depressa que nem me viu.

O computador chegou, mas eu não queria mais saber de notícia nenhuma, eu queria que o mundo explodisse e eu pudesse me ver livre da pilha, que agora eu usava como assento para ficar na frente do computador. Em um site, aprendi a fazer esculturas de papel machê usando os jornais velhos. Eu tinha, porém, mais material do que habilidade. O origami deu ainda menos certo e o máximo que eu consegui fazer foi um chapéu.

Muitos meses depois, eu mal conseguia andar pela casa sem esbarrar em tiras de quadrinhos, políticos corruptos e enchentes no Paraná. Eu também já nem usava mais toalha, me secava com as páginas do suplemento dominical, que, apesar do inconveniente de soltarem tinta, não precisavam ser lavadas depois. E as folhas tinham lá sua utilidade – impedir uma goteira, substituir um vidro quebrado. Melhor ver uma foto da Patagônia do que a rua suja do lado de fora.

E, pensando bem, eu não ia mais precisar do fogão, podia queimar algumas folhas para cozinhar. Quando descobri que em Londres era costume levar comida embrulhada em jornal, me livrei dos pratos também. No inverno, uma boa camada de notícias quentes era melhor que meu cobertor. Os moleques da rua me chamam de louquinho do jornal, mas eu me defendo, jogando bolinhas amassadas de realidade neles. Só jogo as notícias mais cabeludas, que essas doem mais.

Eu sonho com resenhas, notas e gráficos. O Diário marcou uma entrevista comigo, mas eu não entendo, não sei nada sobre escândalos nem tendências. Eu não sou notícia.

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Capítulo sessenta e nove – Hábito

terça-feira, 23 março 2010 § 1 comentário

Ele saiu do banheiro, entrou no quarto e encontrou-a deitada no lado esquerdo da cama, já completamente levada pelos sonhos que sonhava dentro da cabeça que estava apoiada no travesseiro. Mas não foi o fato de já estar dormindo que o espantou – havia mesmo demorado no banheiro, entretido com uma reportagem na revista – e sim o fato de ela estar no lado esquerdo da cama.

Dezessete anos. A vida é curta demais para as coisas que deixamos de fazer, longa demais pra aguentar a rotina diária. Dezessete anos não foram nada para o rapaz que não vê a hora de poder dirigir, terminar a escola, comprar cigarro, frequentar um lupanar, ser dispensado do serviço militar. Dezessete anos num mesmo emprego podem ser uma eternidade entediante. Em dezessete anos de casamento, não há nada que não se saiba um do outro – quanto tempo leva pra tomar banho, qual a hora preferida do dia para usar o banheiro, a localização exata de cada mancha na pele, doenças, alergias, vergonhas da infância, a cara que faz quando se preocupa à toa com os filhos, a quantidade exata de sal necessária na pipoca e o lado da cama que dorme.

Alguém já disse (muita gente já deve ter dito, provavelmente) que as pessoas não mudam de hábitos com a mesma facilidade que mudam a cor do cabelo. Por que ela mudou de lado na cama depois de dezessete anos de casamento? Não que os dois tenham jamais combinado qualquer coisa a esse respeito, mas sempre foi assim. E ninguém enjoa de uma coisa depois de dezessete anos, enjoa depois de dezessete dias, dezessete semanas, talvez. Ele não pensou em acordá-la só para perguntar o motivo. Talvez ela estivesse com dor no braço direito. Mas se estivesse, por que não disse? Perguntaria o motivo pela manhã e o problema estava resolvido. Pronto, agora era só dormir e esperar o café da manhã. Alguém já disse que as pessoas não mudam de hábitos com a mesma facilidade que mudam sua opinião sobre o seu filme favorito de todos os tempos.

Meu deus, eu já achei que Tubarão era o melhor filme do mundo! Fui ver Blade Runner quatro vezes no cinema! Agora não sei se prefiro O Poderoso Chefão ou A Lista de Schindler. Acho que tô ficando velho, só gosto de filme de velho. E como é que ela pode achar que Beleza Americana é um ótimo filme?

Tudo isso ele pensava por que não conseguia dormir do lado direito da cama – se virava pro lado direito, não conseguia achar um jeito confortável de deixar o braço direito, se virava pro lado esquerdo, não conseguia respirar direito por causa do cabelo dela muito perto do seu rosto. Levantou e foi fazer um chá.

Ele gostava mais de chá preto, mas a cafeína não ia ajudar em nada a essa hora da madrugada. Fez chá de camomila, que era o preferido dela. Ficou pensando se não havia alguma outra coisa que ela tinha mudado e ele não tinha percebido. Será que essa mudança era um sinal de que ela estava mudando ou queria mudar? Talvez fosse o primeiro sinal de muitos. E em alguns meses, ela o acusaria de ser sempre o mesmo, de nunca fazer nada diferente, de ser o tédio, o velho representando a tradição estúpida, um reacionário. Ele a acusaria de ter outro, de ter vários, de ser promíscua, inconstante, imatura, querendo ser jovem e inconsequente depois de velha. Seria um fim triste para um casamento que se não foi belo, foi pelo menos normal. O chá já tinha esfriado mais que o pé dele. Despejou o chá na pia e decidiu esquentar o pé no lado direito da cama, pois já passava das duas horas.

No quarto, ela tinha voltado para o lado direito.

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