Capítulo Sessenta e Três – Pedro Hélio, a barata da caixa de fósforos

sábado, 30 julho 2005 § 1 comentário

Pedro Hélio era uma barata macho que vivia numa caixa de fósforos. Apesar de ser uma barata de respeito, cumpridora da lei e da ordem, era meio cabeça-quente. Quase sempre se metia em alguma briga e quase sempre se arrependia depois. Também pudera, era motivo de chacota entre os seus amigos só por que, veja você, morava numa caixa de fósforos!
-Cuidado pra sua casa não pegar fogo! – dizia a barata Martins, que morava dentro do ralo do banheiro.
-O médico disse que o Pedro Hélio precisava de vitaminas, mas ele não quis destruir a casa dele! – brincava a barata Lopes, que era hipocondríaca.
-É. – concordava sempre a barata Figueira, que não era uma barata de opinião.

Mas Pedro Hélio não tinha outra escolha. Além do mais, já tinha se acostumado a viver ali. A sua casa de caixa de fósforos era toda decorada com cores quentes e num canto havia uma cama feita de palitos. Ele era uma barata feliz até. Mas sentia falta de alguém para aquecer as noites frias.

Paula Helena era uma garota quente. Digo, uma barata quente. Uma barata fêmea de fazer qualquer um perder a cabeça. Pedro Hélio a conheceu num clube noturno, o “Fiat Lux Jass Club”. Ele costumava tocar saxofone com a sua banda aos domingos. Paula Helena curtiu o som e foi falar com Pedro Hélio depois do show.
-Tens fogo? – perguntou ela com um cigarro na mão.
Combinaram de passear no parque numa quarta-feira à tarde. Era um dia ensolarado de piquenique. Disfarçado de formiga-operária-padrão, Pedro Hélio roubou um quindim de uma cesta alheia. Paula Helena se apaixonou. Marcaram suas inicias dentro de um coração no tronco de um pau-brasil.

“Você incendeia meu coração”, escrevia ele nas poesias de amor que fazia para ela. Era verão. Paula Helena se mudou para a casa de caixa de fósforos. E tiveram filhos e a casa ficou pequena. Pedro Hélio, agora pai de família, arranjou um emprego no corpo de bombeiros e eles puderam se mudar para uma caixa de sapatos no canto do quarto onde o sol bate todas as manhãs e ninguém mais desrespeita o Pedro Hélio.

Dizem à boca-pequena que a paixão dos dois já esfriou. Mas isso eu não sei se é verdade. 

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