Capítulo Sessenta e Um – Ela

sexta-feira, 19 novembro 2004 § Deixe um comentário

Eu já estava no segundo copo, mesmo bebendo devagar. Dezessete minutos atrasada. Será que ela viria mesmo? Por que haveria de se importar com alguém como eu?

-Aparecer na tv não é nada – ela me disse entre uma baforada e outra do cigarro de menta que ela fumava – você não é melhor ou pior do que ninguém só por que apareceu na tv. A fama só serve pra acabar com a sua privacidade. E o dinheiro… bem, o dinheiro é bastante útil enquanto não desaparece da sua mão.

Eu olhava entediado para as pedras de gelo no fundo do meu copo.

Quase não acreditei quando ela entrou. Ela veio mesmo. Corri em sua direção e logo me apresentei, dizendo que estava muito feliz por ela ter aceitado o meu convite. Ela disse que dois anos atrás eu sequer conseguiria conversar com ela, mas hoje em dia os antigos fãs mal se lembram dela, imagine convidá-la para sair. Eu disse que uns amigos nem acreditaram que eu ia sair com uma estrela da televisão e que eles lembravam bem dela. Ela apenas sorriu.

-Você é quem eu estou pensando que é?
-Se você está pensando que eu sou alguém que lê mentes, então está errado.
Ela sorriu. Eu sorri, muito mais pela felicidade de falar com ela do que pelo gracejo.
-É claro que você é quem eu estou pensando que você é! Sou o seu maior fã!
-Acho que hoje em dia você é o meu único fã.

Suas pernas eram lisas como nos meus sonhos. Seus seios, ainda mais lindos. Ela tinha um gosto que eu jamais imaginara. Como nunca imaginei que gosto ela tinha? Seu perfume era doce e os fios de cabelo eram grossos e bem cuidados. Seus gemidos pareciam muito mais verdadeiros agora do que quando eu os ouvia nas cenas mais picantes da tv. Acho que eram gemidos de prazer.

-Você já sonhou muito com algo e quando realizou parecia que não era verdade?
-Já. E quando virou coisa do passado eu percebi que não aproveitei nada e que não ia ter outra chance de realizá-lo.
(Às vezes ela era extremamente dramática).
-Você se arrepende disso?
-Talvez. Mas se eu tivesse a sorte de ter aproveitado não teria aprendido nada.
-Você acha que eu devo aproveitar isso tudo que está acontecendo agora?
-Deve. Quando você morrer, tudo o que você aprendeu não vai valer de nada.

Da segunda vez que conversamos, tomei coragem de convidá-la para sair. Ir a um bar, um restaurante, enfim, algo mais sério. Ela aceitou com uma naturalidade que me chocou.

Depois que terminamos, ela acendeu mais um cigarro de menta. Pensei em perguntar se tinha sido bom, mas achei ridícula a idéia. Eu não sabia o que falar nem o que fazer. Ela disse que era melhor que aquilo ficasse entre nós. Uma velha canção tocava no rádio. Desliguei o rádio.

Ela enrubesceu. Achei que você estivesse acostumada a ouvir elogios. Nunca me acostumei a ouvir elogios tão sinceros.

Entrei no apartamento tentando não demonstrar muita curiosidade. Era um apartamento comum. Cortinas comuns, mesa comum, cama comum. Eu era o único objeto estranho naquele lugar.

Fui até o banheiro, olhei o meu rosto no espelho e nada havia mudado. O mesmo rosto desbotado e apático de sempre. Voltei para o quarto e ela olhava para o teto.
-O que há de tão interessante aí em cima? – e me deitei ao lado dela pra poder olhar também.
-Nada, é por isso que eu gosto de olhar pra lá.
-Por isso que você se interessou por mim? Por que eu não tenho nada de interessante?
-Todo mundo tem algo de interessante. É por isso que eu olho para o teto de vez em quando, quando quero esquecer as pessoas.
-E por que você quer esquecer as pessoas agora?
-Eu queria mesmo é esquecer de mim mesma. Olha para o teto e vê se me esquece…

Eu estava triste no meu canto, vendo todas aquelas pessoas passando, quando reparei em uma mulher sentada numa mesa lá do outro lado. Era ela. 

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