Capítulo Quarenta e Nove – Narração sem nenhum propósito

sexta-feira, 12 dezembro 2003 § Deixe um comentário

É preciso não pensar muito difícil agora. A simplicidade é uma meta impossível a ser alcançada como um cálice sagrado. Entra sorrateiro e furtivo no quarto e pega uma aspirina pra mim, só me dói agora e doer me expurga as culpas, mas hoje a dor me atrapalha pensar no que vamos fazer: fugir de um louco nunca foi tarefa das mais fáceis.
Eu sei que eu nunca devia ter metido você nessa mas também como eu ia saber? Com aqueles olhos carentes eu nunca imaginei que ele fosse um príncipe encantado às avessas. Tudo o que fiz na vida foi errado, eu nasci errada, aposto, com os pés primeiros. Meto os pés pelas mãos, me desgraço toda e nunca aprendo, sou muito inocente, sabia? Meu pai costumava me dizer isso: você é muito ingênua, acredita até no papai noel…
Fica quieto que eu preciso pensar num plano, um plano assim de ser inteligente, pra que ele nunca imagine o que eu vou fazer. Só espero que o telefone não toque. Que eu iria dizer pro outro lado da linha? Seria constrangedor, é tudo constrangedor. Você deve estar pensando: como ela é fatalista e um tanto quanto pessimista. Eu sei, eu também penso assim sobre mim. Mas que eu vou fazer?
Desenho mentalmente um mapa da fuga na parede. É preciso estar atenta aos menores detalhes. Por que eu falo tanto? Objetividade nunca foi meu forte. Não, não podemos mesmo ficar aqui o resto do dia. Sou orgulhosa demais pra ligar e pedir ajuda. Você diz isso por que ainda não entende que certas coisas não se resolvem tão fáceis.
Quando eu tinha sua idade, descobri aquelas manchas roxas no rosto da mamãe não eram de um tombo qualquer. Por isso não falo mais com aquele velho e nem o perdôo por ter deixado ela morrer. Ele a matou de desgosto pouco a pouco. Como assim por que eu estou falando isso? Não é óbvio? As situações são parecidíssimas. É claro que não é tão drástico assim meu caso, mas é parecido.
Me canso. Minha mente e meu corpo se cansam e me cansam. E cada vez me dói mais, aquela aspirina não serviu pra nada. Sou um soldado vencido na batalha com seu orgulho ferido. Liga pra ele e pede ajuda, vai, mas espera só um pouco pra ver se não acontece nada de diferente. E diz o quê? Oras, diz a verdade, por mais que isso me doa. E isso me dói.

—–
Ele atende o telefone e aquela voz conhecida lhe sussura:
-Pai, vem pra casa que o Rex tá querendo morder a mamãe.

Que tolice.

Capítulo Quarenta e Oito – Blá Blá Blá

sexta-feira, 5 dezembro 2003 § Deixe um comentário

-Já disse que te amo, hoje?
-Não, ainda não…
-Ah, tá…
-E então?
-Então o quê?
-Você não vai falar?
-Falar o quê?
-Que me ama, oras!
-Por quê?
-E precisa de um motivo?
-Não, mas parece que eu sou obrigado a falar agora.
-É que você acabou de perguntar se já tinha dito que me ama, hoje e eu achei que você ia dizer!
-Só por que eu perguntei?
-É lógico!
-É lógico só na sua cabeça…
-Você tá zoando comigo?
-Não, eu não estou é te entendendo…
-Quem não está entendendo sou eu. Você não me ama mais? É isso?
-Claro que te amo!
-Então por que não diz?
-Mas eu acabei de dizer!
-Claro, agora que eu briguei com você…
-Quer saber? Eu não agüento mais essa conversa!
-Nem eu!
-…
-…
-Amor, me desculpa?
-Que isso, eu é que…

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