Capítulo Quarenta e Um – Doces Perigosos

sexta-feira, 10 outubro 2003 § 1 comentário

Ele saiu correndo no meio da chuva tentando ordenar os pensamentos que se acumulavam, o deixando confuso. Esbarrou em duas ou três pessoas de guarda-chuva e quase chutou um cachorro magro que procurava uma sombra pra se abrigar da água que caía do céu.
Entrou numa loja que só não estava no breu total por conta da luz que entrava pela porta – por que ainda era dia e não havia energia elétrica no bairro. A moça do balcão nem deu pelo homem que entrou todo encharcado, conversava banalidades com uma cliente antiga. O homem passou os olhos pelas prateleiras e puxou a embalagem mais chamativa, nem olhou o preço, o que lhe interessava era… na verdade ele não sabia o que era, apenas pegou a embalagem que mais lhe atraiu e nem sequer sabia o porquê. O único pensamento racional que teve foi o de pensar que agia instintivamente como um animal. Levou a embalagem até o caixa e com as mãos ainda meio molhadas pegou uma nota de dentro da sua carteira. A moça do balcão – que também era a moça do caixa – colocou o produto dentro de uma sacola plástica e pegou a nota com um certo nojo do aspecto gosmento do papel meio úmido e devolveu o troco. Sem dizer uma palavra.
O homem enfiou a sacola debaixo da blusa para evitar que seu precioso produto e a sua preciosa embalagem não molhassem. Estava mais feliz que criança com brinquedo novo, se de fato não era uma.
Ao chegar em casa se enxugou rapidamente com a primeira toalha que encontrou e foi logo abrir o pacote. Abriu com cuidado a parte de cima e olhou para dentro da caixa colorida e lá dentro não era colorido, era escuro. Enfiou a mão e desconfiado puxou uma pequena bala. Olhou, viu a cor rosa bastante artificial, cheirou e um cheiro doce invadiu suas narinas. Enfiou na boca e saboreou tomando cuidado para não morder. Sentiu um gosto que há muito tempo não sentia, gosto da infância e dessas coisas bregas todas.
Estava curtindo o momento quando o telefone tocou. Pensou em reclamar mas a voz não lhe saiu: engoliu a bala sem querer e começou a engasgar. O telefone não parava de tocar e ninguém podia lhe ajudar – nem a desengasgar nem a atender ao telefone. Quis correr para a cozinha mas não estava enxergando nada, a tarde já ia embora e a luz ainda não tinha voltado no bairro. Tropeçou em algo no meio do caminho, tentou se apoiar na mesa e derrubou-a em cima de si mesmo, junto com a caixa colorida de balas coloridas. Doeu mas pelo menos a bala que estava entalada na sua garganta saiu com a batida. Então pensou que não devia ter saído de casa só por causa de uma vontade boba de comer doce. E pensou que aquela noite dormiria ali mesmo, sentindo o cheiro doce das balas doces e sonhando sonhos coloridos.

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