Capítulo Quarenta e Cinco – 1999/2000

quarta-feira, 29 outubro 2003 § Deixe um comentário

-Nossa, o negócio aqui é chique mesmo, né?
-E eu não te falei, menina?
-Mas olha como tem umas mulheres que se vestem mal por aqui…
-Gente rica tem gosto estranho mesmo.
-A dona da festa não devia de deixar entrar gente mal-vestida assim não, fica até feio na foto depois…
-Mas fazer o quê, né?
-É… E diz aí, onde é que foi que você conheceu esse cara?
-Conheci por acaso numa fila de cinema…
-E o cara te deu convites pruma festa dessa?
-Pois é, disse que tem uns conhecidos por aqui.
-Quem diria, hein? Nós duas na virada do milênio numa festa bonita dessas…
-Ô, menina, deixa de ser burra que a virada do milênio é só no ano que vem! Não viu no Fantástico, não?
-Mesmo assim, daqui a pouco é o ano dois mil. Quando eu era pequena achava que quando a gente chegasse no ano dois mil ia ter carro voando por aí, um monte de robô fazendo serviço pesado e pílula pra gente comer e ficar satisfeita…
-E eu sempre achei que o mundo fosse acabar no ano dois mil. E se quer saber, ainda acho.
-Agora você é que tá sendo burra! Não sabe que no Japão já é amanhã e pelo visto não acabou, né?
-E como é que você sabe? Ouviu falar alguma coisa do Japão hoje?
-Não, mas também, eu fiquei o dia inteiro na praia…
-Então, eu acho que o Japão acabou e ninguém sabe ainda…
-Ah, mas se o Japão tivesse acabado você não acha que já ia todo mundo tá sabendo?
-É? E se acabou e ninguém soube? Já que todo mundo morreu quem é que ia contar?
-Mas e não iam ver as explosões?
-E se acabou de um jeito diferente? Mais silencioso..
-Pois se o mundo acabasse agora eu morria feliz, por que pelo menos ia tá no meio de gente rica…
-Mas ia morrer pobre do mesmo jeito.
-Pobre mas feliz.
-Felicidade de pobre dura pouco.
-Se o mundo acabar hoje a felicidade de todo mundo aqui vi durar pouco.
-É verdade…
-E se o mundo acaba quem perde são eles que têm muito, a gente não ia perder nada…
-Então vamos se não a gente vai é perder a contagem regressiva…
-E a comida também…

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Capítulo Quarenta e Quatro – Eu, mim e eu mesmo

domingo, 26 outubro 2003 § Deixe um comentário

Eu tô falando comigo
Eu tô falando pra mim mesmo
Eu tô falando sozinho
E já não me dou mais ouvidos

Então calo a boca pra escutar
O que eu tenho pra me falar
E é sempre bobagem
E reclamação
Acho que é por isso
Que ninguém me dá mais atenção

É que hoje me olhei no espelho
E já não era mais o mesmo
Daí eu perguntei sobre as novidades
Eu tava curioso pra saber como era ser eu mesmo
Perguntei a minha idade
E a quantas andava minha popularidade
Perguntei sobre os amigos
E se eu ainda detestava couve-flor

Às vezes até tento me consolar
E dizer que tudo um dia vai melhorar
Mas não agüento mais minhas mentiras
Não agüento meu egocentrismo
Nem a minha voz esganiçada
E me mando ficar quieto
Mas não suporto o silêncio

E digo que vou embora
Que nunca mais quero me ver
Me xingo de idiota
E até ameaço me bater

No fim das contas percebo
Que ninguém ganhou nem perdeu
Nesse eu contra eu

Capítulo Quarenta e Três

domingo, 19 outubro 2003 § Deixe um comentário

…e o menino curioso
furou os dois olhos
só pra ver
o que tinha dentro…

Capítulo Quarenta e Dois – A balada do homem de nunca mais

quinta-feira, 16 outubro 2003 § Deixe um comentário

Pulou por cima de uma andorinha, criou asas e fez que não viu. Sonhou que era gente normal e que ia trabalhar, acordou assustado com o próprio umbigo. Fez sentido quando tinha um gato na mesa, à milanesa, que beleza! Veja você, que coisa, eu rimo e não tenho vergonha… Já ele, colocou o casaco acústico e nem deu tchau. Parou antes que pudesse pensar pra onde ia. Viu que era melhor assim. Do outro lado da cidade, alguém igual a ele ia ao seu encontro, mas pro lado errado.
Pensou que era um ato surreal abrir um porta. Mas passou assim mesmo por cima do muro. Chegando em casa, tirou os chinelos e foi ouvir um sorvete de baunilha com tendências pós-modernas. Apagou o sol para poder relaxar e dançou. Enquanto dançava, sonhou que era gente normal e que ia trabalhar. Pensou que devia ver o padeiro por causa desse sonho freqüente.
Desceu ao teto onde estava o padeiro – que não sabia fazer pães de nuvem, que escândalo! – e por isso o padeiro entendeu tudo, disse que era o que não era e que devia fazer tudo ao contrário. Voltou para casa de costas e sussurrou coisas bonitas ao pé da cova.
Teve medo quando sonhou o sonho de novo, mas dessa vez sonhou quando dormia e por isso teve mais medo do que coragem. Arranjou um emprego de mentir para o rei e nunca mais sonhou. Puxou o final da história de baixo do travesseiro e deu na cara do leitor.

Capítulo Quarenta e Um – Doces Perigosos

sexta-feira, 10 outubro 2003 § 1 comentário

Ele saiu correndo no meio da chuva tentando ordenar os pensamentos que se acumulavam, o deixando confuso. Esbarrou em duas ou três pessoas de guarda-chuva e quase chutou um cachorro magro que procurava uma sombra pra se abrigar da água que caía do céu.
Entrou numa loja que só não estava no breu total por conta da luz que entrava pela porta – por que ainda era dia e não havia energia elétrica no bairro. A moça do balcão nem deu pelo homem que entrou todo encharcado, conversava banalidades com uma cliente antiga. O homem passou os olhos pelas prateleiras e puxou a embalagem mais chamativa, nem olhou o preço, o que lhe interessava era… na verdade ele não sabia o que era, apenas pegou a embalagem que mais lhe atraiu e nem sequer sabia o porquê. O único pensamento racional que teve foi o de pensar que agia instintivamente como um animal. Levou a embalagem até o caixa e com as mãos ainda meio molhadas pegou uma nota de dentro da sua carteira. A moça do balcão – que também era a moça do caixa – colocou o produto dentro de uma sacola plástica e pegou a nota com um certo nojo do aspecto gosmento do papel meio úmido e devolveu o troco. Sem dizer uma palavra.
O homem enfiou a sacola debaixo da blusa para evitar que seu precioso produto e a sua preciosa embalagem não molhassem. Estava mais feliz que criança com brinquedo novo, se de fato não era uma.
Ao chegar em casa se enxugou rapidamente com a primeira toalha que encontrou e foi logo abrir o pacote. Abriu com cuidado a parte de cima e olhou para dentro da caixa colorida e lá dentro não era colorido, era escuro. Enfiou a mão e desconfiado puxou uma pequena bala. Olhou, viu a cor rosa bastante artificial, cheirou e um cheiro doce invadiu suas narinas. Enfiou na boca e saboreou tomando cuidado para não morder. Sentiu um gosto que há muito tempo não sentia, gosto da infância e dessas coisas bregas todas.
Estava curtindo o momento quando o telefone tocou. Pensou em reclamar mas a voz não lhe saiu: engoliu a bala sem querer e começou a engasgar. O telefone não parava de tocar e ninguém podia lhe ajudar – nem a desengasgar nem a atender ao telefone. Quis correr para a cozinha mas não estava enxergando nada, a tarde já ia embora e a luz ainda não tinha voltado no bairro. Tropeçou em algo no meio do caminho, tentou se apoiar na mesa e derrubou-a em cima de si mesmo, junto com a caixa colorida de balas coloridas. Doeu mas pelo menos a bala que estava entalada na sua garganta saiu com a batida. Então pensou que não devia ter saído de casa só por causa de uma vontade boba de comer doce. E pensou que aquela noite dormiria ali mesmo, sentindo o cheiro doce das balas doces e sonhando sonhos coloridos.

Capítulo Quarenta – Ciúmes

sábado, 4 outubro 2003 § Deixe um comentário

Ricardo era um mulherengo, Ana era ciumenta.
Ricardo casou com Ana depois de namorarem quatro anos.
Ana vivia suspeitando de Ricardo. E com razão, pois Ricardo a traía freqüentemente. E depois de algum tempo Ana convenceu Ricardo a se mudarem pra um bairro mais afastado, mais calmo, na esperança que ele também se acalmasse. Doce ilusão, no trabalho Ricardo continuou impossível. Ana sugeriu que ele passasse a trabalhar em casa, usando o computador e o telefone não precisava de mais nada. E Ricardo saía escondido à noite para os bares.
Ana arrastou Ricardo para uma cidadezinha que não tinha bares, boates ou qualquer tipo de vida noturna. E Ricardo se engraçou com as vizinhas.
Enquanto Ricardo dormia, Ana o levou para uma ilha deserta. E lá viveram felizes por muito tempo até Ricardo morrer.
Procurando um lugar pra enterrar o marido, Ana chorou como nunca ao chegar na praia do outro lado da ilha, o lado que nunca tinha ido.
Na areia, Ricardo havia esculpido dezenas de mulheres.

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