Capítulo Trinta e Cinco – Liberdade é uma palavra perigosa (título provisório)

domingo, 10 agosto 2003 § Deixe um comentário

Amarelinho era um passarinho. Um pássaro canoro qualquer, azul, mas com uma manchinha amarela no peito, razão do seu nome. Ainda pequeno, Amarelinho foi achado machucado e caído no meio de uma rua de uma cidadezinha interiorana e encantou o seu Adamastor, carpinteiro de profissão, com o piado agudo. Seu Adamastor cuidou dele e o colocou numa velha gaiola de madeira e lá Amarelinho cresceu, cantando cada vez mais bonito. Amarelinho não conhecia outra vida que não aquela, cantando e bebendo água fresca todo dia.
Mas o tempo, que não sabe fazer outra coisa a não ser passar e passar, passou. E o pássaro envelheceu. Envelheceu mais do que o seu dono, que era gente. E todo mundo sabe que gente costuma viver mais do que passarinho, especialmente os passarinhos que vivem em velhas gaiolas de madeira. E foi ficando assim menos vigoroso, meio sem voz, dava até pena de ver. Daí seu Adamastor, que era gente mas também tinha coração, resolveu soltar o bichinho. Foi até o quintal e abriu com cuidado a gaiola. Amarelinho estranhou o rangido, foi até a abertura e colocou o bico pra fora. O velho animou:
-Vai, ‘marelinho, vai. – e fez um gesto com a mão pra ele ir embora.
Amarelinho pareceu se animar, abriu as asas e foi direto ao chão. O carpinteiro o juntou e o levantou bem alto com a palma da mão. Dessa vez ele conseguiu voar. Voou bem alto, como se nunca tivesse voado na vida. Passou por cima da casa e quando chegou do outro lado da rua, o filho do vizinho, moleque levado, acertou Amarelinho com uma pedra lançada com o seu estilingue (ou atiradera, eu não sei que lugar ficava essa cidade).
E uma lágrima deve ter caído do olho cansado do seu Adamastor por ver seu passarinho livre pro resto da vida.

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