Capítulo Trinta – Companheiros

segunda-feira, 14 julho 2003 § Deixe um comentário

1.
Segunda-feira. O super-herói levanta de mau-humor com o despertador zunindo na cabeça. Meio-dia e já tinha que acordar. No tempo do seu pai (tempo de herói de verdade, com superpoderes e não um monte de tranqueiras tecnológicas) os vilões eram maus que nem hoje, mas pelo menos respeitavam os domingos. Pega o despertador e o esmaga para parar de tocar.
Vai até o banheiro cuspir, limpar remela do olho e tirar água do joelho. Volta ao quarto bagunçado procurar o caderninho de anotações: “comprar despertador novo.” Na cozinha toma café amargo, que o açúcar acabou há uma semana e ele já está com vergonha de pedir pra vizinha pela terceira vez. “Comprar assucar” anota. “Assucar tem acento?” pensa. Apanha as contas atrasadas de cima da mesa e sai.

2.
O vilão chega em casa e praticamente desmaia na sua cama de vilão. Além de ter que lutar com aquele paspalho de cueca por cima da calça teve que se matar pra cavar um túnel pra fugir da prisão (“nem sei pra que ainda me colocam aqui se fujo sempre, mesmo… ia me poupar um bom trabalho”).

3.
Ao chegar em casa o herói pensa em dormir mas o telefone toca assim que se deita na cama.
-Que é?
-Super, é você?
-Comissário, já pedi pra você parar de me chamar assim, pega mal…
-Tá bem, tá bem… Eu só liguei pra dizer que ele fugiu de novo.
-Mas já?! Essas prisões estão cada vez piores…

4.
-Alô? – diz com a voz pastosa de sono.
-Volta pra lá agora. – diz a voz decidida do outro lado.
-Ah, boa tarde pra você também.
-Corta essa. Volta já pra cadeia.
-Nem morto. Bom, talvez morto. Mas quero ver quem vai me matar…
-Volta agora.
-Deixa de ser chato, tive um trabalhão pra fugir de lá…
-E eu tive um trabalhão pra te prender.
-Mas o bonzinho aqui é você. Você é que devia se importar com o meu esforço.
-Tá querendo me enrolar, é? Eu não quero ter que ir até sua casa te levar pela orelha que nem um menino…
-Quero ver você me achar: mudei de endereço há oito semanas…huahuahua…
-Talvez não achasse mesmo se a nova lista telefônica não tivesse chegado essa semana.
-Eu pedi pra tirarem meu endereço! Merda de companhia telefônica…

5.
Dim-dom! Abre a porta.
-Ah, é você e sua fantasia ridícula de novo?
-Mas que implicância com a minha roupa… Já tá pronto?
-Não, você chegou rápido demais, nem deu tempo pra preparar minha fuga daqui…
-Você sabe que um dos meus superpoderes é a supervelocidade…
Faz cara de deboche enquanto põe suas luvas:
-Blá, blá, blá…
-Olha, você não vai querer brigar comigo, né? Dormi muito mal hoje, acho que preciso trocar o meu colchão.
-E eu, então? Fiquei cavando aquele buraco… minhas costas estão me matando… – volta do quarto já com as botas calçadas e com um cartão na mão – Vou te dar o cartão da loja que eu comprei a minha cama. Diz que fui eu que te mandei. O gerente é meu amigo e vai te dar um desconto.
-Muito obrigado. Mas não pense que isso vai te livrar da cadeia.
-Imagina. Pra que servem os amigos?
-Amigos… sei…
-Bom, vamos embora logo antes que tapem todo o buraco que eu fiz de manhã.
E fecha a porta.

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