Capítulo Trinta e Dois – Inconveniência

quinta-feira, 31 julho 2003 § Deixe um comentário

-Alô?
-Boa tarde, aqui é da New Hiper Bit Professional Courses. Meu nome é Alessandra e hoje temos uma promoção especial só pra você. Como é o seu nome?
-Ahn? Ah, meu nome é Bucetildes.
-No duro? Quer dizer, sério?
-Mas se eu tô dizendo! Olha, se for pra ficar caçoando do meu nome, eu vou desligar!
-Não, minha senhora, me desculpe. É que esse é um nome meio estranho.. quer dizer, um nome que não se ouve todo dia.
-Olha, minha filha, eu sei que o meu nome é esquisito, não precisa ficar me lembrando, né? Afinal, o que você quer?
-Ah, sim. Nós temos uma promoção imperdível. Fazendo o curso de Automação Empresarial Trilingue, nívels 1, 2 e 3, você ganha a matrícula grátis!
-Minha filha, eu não tô interessada em curso nenhum.
-Calmaí! Se você fizer a matrícula ainda hoje ganha também um brinde especial!
-Mas eu não tenho dinheiro nenhum, meu marido morreu e me deixou uma pensão miserável, aquele pão-duro…
-Pois então! Essa é a oportunidade perfeita para a senhora arranjar um emprego. Nosso curso tem uma garantia registrada em cartório: se a senhora não arranjar emprego depois do nosso curso devolveremos o seu dinheiro após a comprovação que o curso não foi útil em nada pra senhora.
-Mas eu mal consigo sair de casa pra pegar o dinheiro da pensão, com todos esses problemas de saúde que eu tenho, imagina então arrumar um emprego!
-Bem… mas a senhora não tem filhos?
-Tenho sim, mas..
-Pois então! A promoção é válida pra eles também.
-É, mas eu não faço a menor idéia de onde eles estão, me abandonaram aqui nessa casa velha. Ingratos.
-Puxa, mas, perdoe-me a curiosidade: o que a senhora faz o dia todo?
-Bom, agora mesmo eu estava me preparando pra tomar todos os comprimidos que eu tenho aqui em casa.
-Só um momento, minha senhora.
-O que você vai fazer?
-Vou transferir sua ligação pro CVV. A New Hiper Bit Professional Courses agradece a sua atenção. Tenha uma ótima tarde!

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Capítulo Trinta e Um – Costumes estranhos

quarta-feira, 23 julho 2003 § Deixe um comentário

Desde a escola ele tinha a irritante mania de ler em voz alta. Foi expulso pelo menos umas três vezes da biblioteca por causa disso. E duas vezes do cinema, antes de desistir de assistir a filmes legendados.
Mas fora isso levava uma vida normal. Se casou, teve uma filha e a levou pra passear no parque. Enquanto a filha brincava, ele lia o jornal. Enquanto ele lia, a filha ouvia. E quando a filha ouvia, ela não entendia nada. Dólar, gente morta, crise, gente reclamando da qualidade da tv e principalmente o tal do “governo” que tanto falavam.
-Pai, o que é governo?
-O quê?
-Que que é o governo que você falou?
-Ah, governo são as pessoas que o povo escolhe pra cuidar dele.
-Pai, o povo é criança?
-Não, o povo é o conjunto de todas as pessoas que moram num lugar.
-E o povo não sabe se cuidar sozinho?
-Sabe. Eu acho que sabe. Mas tem gente que se aproveita do povo.
-E daonde vem essa gente que se proveita do povo?
-Do povo mesmo.
-Ué? O povo se proveita do povo?
-É que tem gente que não entende que faz parte do povo…
-E o governo bate “ni” quem se proveita do povo?
-Não, mas põe na cadeia.

Cinco minutos depois a garota volta à perguntar?
-Pai, e se o governo se proveitar do povo?
-O quê?
-E se o governo se proveitar do povo? Quem põe o governo na cadeia?
-Teoricamente, o resto do governo.
-Que é “toricamente”?
-É teoricamente. É quando uma coisa devia ser de um jeito mas é de outro.
-Que nem o pudim que a mãe fez ontem?
-Mais ou menos…
-Então quem põe o governo na cadeia de verdade?
-De verdade? Ninguém…
-Então o governo pode se proveitar do povo sem ir pra cadeia? Mas não é pra isso que o governo existe?

Ele nunca mais leu em voz alta.

Capítulo Trinta – Companheiros

segunda-feira, 14 julho 2003 § Deixe um comentário

1.
Segunda-feira. O super-herói levanta de mau-humor com o despertador zunindo na cabeça. Meio-dia e já tinha que acordar. No tempo do seu pai (tempo de herói de verdade, com superpoderes e não um monte de tranqueiras tecnológicas) os vilões eram maus que nem hoje, mas pelo menos respeitavam os domingos. Pega o despertador e o esmaga para parar de tocar.
Vai até o banheiro cuspir, limpar remela do olho e tirar água do joelho. Volta ao quarto bagunçado procurar o caderninho de anotações: “comprar despertador novo.” Na cozinha toma café amargo, que o açúcar acabou há uma semana e ele já está com vergonha de pedir pra vizinha pela terceira vez. “Comprar assucar” anota. “Assucar tem acento?” pensa. Apanha as contas atrasadas de cima da mesa e sai.

2.
O vilão chega em casa e praticamente desmaia na sua cama de vilão. Além de ter que lutar com aquele paspalho de cueca por cima da calça teve que se matar pra cavar um túnel pra fugir da prisão (“nem sei pra que ainda me colocam aqui se fujo sempre, mesmo… ia me poupar um bom trabalho”).

3.
Ao chegar em casa o herói pensa em dormir mas o telefone toca assim que se deita na cama.
-Que é?
-Super, é você?
-Comissário, já pedi pra você parar de me chamar assim, pega mal…
-Tá bem, tá bem… Eu só liguei pra dizer que ele fugiu de novo.
-Mas já?! Essas prisões estão cada vez piores…

4.
-Alô? – diz com a voz pastosa de sono.
-Volta pra lá agora. – diz a voz decidida do outro lado.
-Ah, boa tarde pra você também.
-Corta essa. Volta já pra cadeia.
-Nem morto. Bom, talvez morto. Mas quero ver quem vai me matar…
-Volta agora.
-Deixa de ser chato, tive um trabalhão pra fugir de lá…
-E eu tive um trabalhão pra te prender.
-Mas o bonzinho aqui é você. Você é que devia se importar com o meu esforço.
-Tá querendo me enrolar, é? Eu não quero ter que ir até sua casa te levar pela orelha que nem um menino…
-Quero ver você me achar: mudei de endereço há oito semanas…huahuahua…
-Talvez não achasse mesmo se a nova lista telefônica não tivesse chegado essa semana.
-Eu pedi pra tirarem meu endereço! Merda de companhia telefônica…

5.
Dim-dom! Abre a porta.
-Ah, é você e sua fantasia ridícula de novo?
-Mas que implicância com a minha roupa… Já tá pronto?
-Não, você chegou rápido demais, nem deu tempo pra preparar minha fuga daqui…
-Você sabe que um dos meus superpoderes é a supervelocidade…
Faz cara de deboche enquanto põe suas luvas:
-Blá, blá, blá…
-Olha, você não vai querer brigar comigo, né? Dormi muito mal hoje, acho que preciso trocar o meu colchão.
-E eu, então? Fiquei cavando aquele buraco… minhas costas estão me matando… – volta do quarto já com as botas calçadas e com um cartão na mão – Vou te dar o cartão da loja que eu comprei a minha cama. Diz que fui eu que te mandei. O gerente é meu amigo e vai te dar um desconto.
-Muito obrigado. Mas não pense que isso vai te livrar da cadeia.
-Imagina. Pra que servem os amigos?
-Amigos… sei…
-Bom, vamos embora logo antes que tapem todo o buraco que eu fiz de manhã.
E fecha a porta.

Capítulo Vinte e Nove – História Qualquer

quinta-feira, 10 julho 2003 § Deixe um comentário

Ela agarrou a mão dele e o levou para dançar. Ele dançava tão bem quanto um pato desajeitado. A irmã dela ficou de birra num canto. Ela só fazia isso pra provocar, sabia que a irmã gostava dele, mas não tinha coragem de tirá-lo pra dançar.
Além do mais a irmã mais velha sempre foi a mais bonita, mas tinha inveja da inteligência e talento da caçula. E a caçula tinha raiva da beleza-conquistadora-de-namorados da primogênita.
E fez pior: beijou ele, que ficou sem entender nada, mas tinha medo de perguntar.
E durante quase um mês namoraram. Passeavam todo final de semana, sempre com a irmã junto – exigência da mãe superprotetora. A pequena odiava. Ele (que começava a perceber os olhares diferentes da caçula em sua direção) se sentia constrangido e a mais velha achava graça naquele triângulo amoroso.
Depois de três semanas e meia, mais ou menos, a mãe se mudou com as filhas para outra cidade, distante uns trezentos quilômetros dali. Os dois namorados prometeram se corresponder, o que não cumpriram. A outra ponta do triângulo chorou.

Alguns anos mais tarde, por ocasião de uma fatalidade, os três se encontraram de novo. Os olhos dele brilharam. Os olhos dele ainda eram os mesmos olhos de menino. Elas, no entanto, estavam as duas mais experientes, com jeito de gente adulta.
-Olá.
-Oi.
-Podemos conversar a sós?
O coração da irmã já havia cicatrizado, não se importava mais com os dois. Tinha um namorado, até.
-Eu sabia que você voltaria um dia…
-Sim, mas é por pouco tempo.
-Como assim? – sorriu sem graça
-Olha, eu estou casada, sabe? Não posso mais ficar me relacionando assim com homens, principalmente antigos namorados.
-Mas eu esperei tanto tempo, nunca amei outra garota, achei que você também…
A irmã gritava que precisavam ir.
-Querido, entenda uma coisa: aquilo tudo foi só por causa do sexo.

Mas eles nunca fizeram sexo.

Capítulo Vinte e Oito – Edmar

quinta-feira, 3 julho 2003 § Deixe um comentário

Uns dias atrás cruzei na rua um garoto, de uns quinze ou dezesseis anos, que ficou me olhando até chegar perto de mim e perguntar:
-Você é irmão do Edmar?
Eu não era irmão de nenhum Edmar.
-Não.
-Ah…
E ele continuou o seu caminho.
Agora, fico imaginando o que teria acontecido se eu dissesse que era (ou fosse mesmo) o irmão do tal Edmar. Provavelmente ele só ia dizer pro Edmar que encontrou o seu irmão. Mas aí não ia ter graça. Por isso bolei umas hipóteses mais interessantes:

Hipótese nº 1
-Você é irmão do Edmar?
-Sou
-Ah, então foi você que andou dando em cima da minha namorada, seu filho da puta?!
E quando eu vejo tem três amigos dele em volta de mim distribuindo socos e chutes…

Hipótese nº 2
-Você é irmão do Edmar?
-Sou
-Trouxe o bagulho?
-O bagulho?
-É, porra, trouxe ou num trouxe? É bom ter trazido, se não tu e o Edmar vão se ver comigo!

Hipótese nº 3
-Você é irmão do Edmar?
-Sou, sim, por quê?
-Bem que o Edmar falou que você era um gato! Pena que sua família não entenda sua opção, né?
E se atira nos meus braços tentando me beijar…

Hipótese nº 4
-Você é irmão do Edmar?
-Eu mesmo.
-Pô, Edmilson (deve ser esse o nome do irmão do Edmar), tá lembrado de mim, não?
-Claro que eu lembro…
-Não senti firmeza. Sou eu, o Ricardo, que estudou com o teu irmão.
-Ah, Ricardo…
-Pôxa, Edmilson, tu fica dois anos sem me ver e já não lembra? Eu vivia na tua casa… Grande amigo você, hein? Diz pro teu irmão que eu nunca mais apareço lá!
-Peraí…

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