Capí­tulo Dezoito – Bilhetes

quinta-feira, 15 maio 2003 § Deixe um comentário

“Mãe,
eu queria te dizer que a geladeira tá vazia, o gato tá estranho (acho que ele tá doente), eu preciso de dinheiro pra comprar umas roupas e o pai ligou dizendo que esse mês a pensão vai atrasar, já que você nunca tá em casa eu tô deixando esse bilhete mesmo que agora eu tenho que sair
beijos, te amo”

“Vítor Augusto, meu filho, se a geladeira tá vazia e você não tem dinheiro a culpa é tua, que não arranja emprego e fica em casa o dia inteiro comendo que nem um porco e se o gato tá estranho é por que ele não tem comida, ontem dei o resto daquela ração com sabor de rato (aliás, onde que você achou ração com sabor de rato? eu nunca tinha visto…)
Agora, pára de dizer que me ama! Se eu te pago um psicanalista é pra ele acabar com esse teu complexo de Édipo, porra! Ai, desculpa, não queria escrever porra, eu queria escrever pôxa. Xi, escrevi de novo… Ah, deixa pra lá. Se o inútil do teu pai ligar, diz pra ele que se a pensão atrasar mais um dia eu processo ele e tiro cada centavo que ele ainda tem. Ora, como ele acha que eu pago os cursos da tua irmã?”

“Mãe,
Você sabe muito bem que tá dificil arranjar emprego pra alguém sem experiência como eu. E que raio de ração sabor rato é essa? A ração do gato tá naquele pote menor em cima da geladeira e é sabor peixe, eu hein…
E pára de uma vez por todas de dizer que eu tenho complexo de Édipo! O doutor já disse que eu não tenho nada disso, que é coisa da tua cabeça. Disse até que era pra marcar uma consulta pra você. O pai ainda não ligou. Beijo

“Vítor Augusto, seu desocupado, eu sei que é dificil arranjar emprego pra alguém sem experiência, mas alguém com 32 anos de idade sem experiência, não dá, né?
E a ração do gato era aquela que tava na despensa, uma caixinha com um desenho de rato, nem vi qual era a marca. Oras, leva o gato no veterinário e pára de me encher.
Depois liga pro teu pai e diz que a tua irmã quer o dinheiro logo. Ela disse que precisa muito, tava até chorando por que a mensalidade tava atrasada, vê se pode! Quer dizer, eu não vi ela chorando, mas devia estar, por que os olhos dela estavam bem vermelhos.
E aquele idiota do Dr. Estevão não sabe de nada. Amanhã mesmo eu te troco de psicanalista.”

“Mãe, você deu veneno de rato pro Aristóteles! Ai, caramba, tô indo agora pro veterinário”

“Mãe, o pai já me mandou meu dinheiro? O pessoal tá dizendo que vai me matar, quer dizer, me expulsar do curso”

“Vítor Augusto, como é que eu ia saber que aquilo era veneno de rato? E Ana Carolina, o seu pai tá fugindo de mim que nem o diabo foge da cruz, não encontro ele em lugar nenhum. A propósito, alguém sabe onde tá meu colar de ouro? Eu vou à uma festa hoje à noite e não acho ele de jeito nenhum”

“Mãe, o gato morreu. Custava ter lido o que tava escrito na caixinha? E eu não vou mais à psicanalista nenhum! E pergunta pra Ana quando é que eles vão apresentar alguma coisa naquele curso de teatro dela, que eu tô doido pra ver… hehehe…”

“Vítor, seu idiota, você sabe muito bem que eu tenho medo do Paulão palco. E mãe, eu preciso do dinheiro até às oito, se não…”

“Minha filha, onde é que eu vou arranjar quinhetos reais até às oito? Eu vou lá reclamar, eles cobram os olhos da cara e ainda não aceitam atraso? Se ao menos seu irmão tivesse um emprego decente…”

“O quê?! Se eu tivesse um emprego eu nunca ia dar dinheiro pra essa menina comprar, quer dizer, pagar esse “curso”. Aliás, o pai ligou disse que não vai dar dinheiro nenhum pra filha dele se envolver com essas coisas. Foi o que ele disse.”

“Mas o seu pai é um ignorante mesmo, ele pensa que os atores são uns indecentes, é? Pois ele vai ver só uma coisa!”

“Mãe, ligaram do IML, disseram que era pra ir lá. Urgente”

“Mãe, o seu advogado ligou, diz que já tá preparando a papelada pro processo do papai. E ligou a secretária do novo psicanalista que você me arranjou. Eu não vou! Também já ligaram do cemitério, disseram que o local tá pronto para o velório.”

“Vítor, acredita que na delegacia disseram que não foi um assaltante que matou tua irmã, que foi um traficante, um tal de Paulão? Meu Deus, o que esses safados queriam com a minha filhinha?! Desculpa as lágrimas no bilhete. Te vejo no velório.”

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