Capítulo Vinte e Quatro – Da vez que Clarissa ligou para Roberto

sábado, 31 maio 2003 § Deixe um comentário

-Alô?
-Oi, é a Clarissa.
-Ah, que bom que você ligou!
-Por que? Aconteceu alguma coisa?
-Não, só achei legal poder falar com você.
-Ah…
-Enfiim. Tudo bem?
-Tudo, tudo. E você?
-Tudo também…
-Legal…
-Você ficou até o final da festa aquele dia?
-Fiquei, pelo menos foi o que me disseram, eu não lembro de nada…
E os dois riram.
-Que coisa, hein? Mas pelo menos de mim você lembra, né? – Roberto sempre foi um cara inseguro.
-Lembro. Eu não estava bêbada a festa inteira, só no final. Sabe como é, fim de festa é sempre um porre… – e deu uma sonora gargalhada, ele não achou muita graça mas riu também…
-Eu tava pensando se a gente podia se encontrar um dia desses…
-Bom, eu ando meio ocupada, mas posso dar um jeito..
-Tudo bem, desde que não seja em outra festa da Lu… – dessa vez ele riu, mas ela não.
-Por que? A festa tava chata?
-Não, que isso. É por que outra festa da Lu só ano que vem…
-Ah, claro..
-Bom, agora eu preciso ir..
-Tudo bem.
-Outro dia eu te ligo, tá?
-Tá legal.
-click!

Dias depois Roberto conheceu a mulher com quem se casaria dois anos mais tarde. Clarissa, de tão ocupada, não se lembrou de ligar pra ele.
E no outro ano nenhum dos dois foi à festa da Lu.

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Capítulo Vinte e Três – Da terceira vez que Roberto ligou pra Clarissa

quinta-feira, 29 maio 2003 § Deixe um comentário

-tuuuuu………..tuuuuu…………tuuuuu…………tuuuuu…………tuuuuu…….
-Oi, aqui é a Clarissa, no momento eu não estou, – Roberto odiava secretárias eletrônicas, mas não tinha outro jeito… – deixe o seu recadinho pra mim, tá? – que espécie de mensagem é essa? Parece coisa de adolescente boba…
-Biiip!
-É… – por onde começar? – aqui é o Roberto, lembra? Da festa da Lu, sábado passado, você me deu o telefone. Então, resolvi te ligar, mas não consegui falar com você, então te deixo esse recado aqui – como ele parecia um idiota falando… – me liga, tá? Er.. beijo.
-click!

Capítulo Vinte e Dois – Da segunda vez que Roberto ligou pra Clarissa

terça-feira, 27 maio 2003 § Deixe um comentário

-tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu
click!

Capítulo Vinte e Um – Da primeira vez que Roberto ligou para Clarissa

domingo, 25 maio 2003 § Deixe um comentário

-tuuuuu………..tuuuuu…………tuuuuu…………tuuuuu…………tuuuuu…….
-Oi, aqui é a Clarissa, no momento eu não estou, deixe…
-click!

Capítulo Vinte – Quem tem medo do Nicolau?

quarta-feira, 21 maio 2003 § Deixe um comentário

Dois sujeitos, desses não dos mais fortes, mas que à luz de um beco sujo são de dar medo em qualquer um. Menos no Nicolau.
Pra quem não sabe, o Nicolau é um suicida em potencial. Não que ele seja depressivo ou tenha feito uma apresentação dessas em cima de um prédio, mas ele não tinha medo nenhum de morrer e não se importava em se meter em situações perigosas.
Pois bem, estavam lá os dois sujeitos já mencionados no, também já mencionado, beco escuro quando deram de cara com o Nicolau:
-Ô, irmão, não tem um qualquer aí pra ajudar a gente?
O Nicolau, muito simpático como sempre, deu um tapinha nas costas do sujeito e lhe falou:
-Fica pra próxima, amigo – e saiu andando.
O sujeito o agarrou pelo braço e ameaçou:
-É melhor tu passar logo o que tem se não quer confusão…
-Ah, já entendi!
-Entendeu o quê?
-Nada, não… -e deu uma risada disfarçadamente, o que irritou muito o meliante.
-Esse cara de zoeira com nós, Zé!
-Calma, rapaz, pega logo o que tu quer e vâmo dar o fora antes que suje pra nós!
E o Nicolau calmo como um dia de verão numa cidade do interior:
-Eu não sei quanto à vocês, mas eu quero chegar logo em casa, então pega logo o que tem que pegar – e abriu os braços.
O outro desconfiou:
-Ih, qualé? Tá dando uma de fácil, agora? Aí tem coisa…
-Tá com medo do quê? Eu não tô armado, não, pode ver…
Realmente o Nicolau não tinha cara de quem carrega uma arma, sequer tinha cara de quem batia em alguém. Na verdade ele estranho demais pra ter cara de qualquer coisa.
O assaltante revistou os bolsos e a carteira do Nicolau:
-Mas tu não tem quase nada!
-É que tua mãe levou tudo o que eu tinha, ontem à noite! – e desatou a rir…

O enterro do Nicolau não foi triste, não. Todo mundo que conhecia o Nicolau sabia como ele era. Tudo bem que ninguém nunca imaginou que ele seria capaz de tal façanha, que, pra falar a verdade, eu nem sei como souberam, já que os dois mal-encarados fugiram logo após os disparos.
Mas o enterro do Nicolau não pode ser triste mesmo por um pequeno detalhe: o defunto exibia no rosto um sorriso insano de quem perde a vida, mas não perde a piada…

Capítulo Dezenove – Gente Inteligente

sábado, 17 maio 2003 § Deixe um comentário

Num bar, sexta à noite, a amiga reclama com a outra que está cansada de homens burros e idiotas. A amiga então diz que conhece um cara perfeito pra ela.
No sábado a amiga chega com o tal cara.
Após as devidas apresentações:
-Como você é bonita.
-Que isso, são seus olhos.
-Na verdade isso é fruto de um padrão estético preconceituoso pautado por qualidades características de pequenos e privilegiados grupos, disseminado pela sociedade, mas muito criticado. Além do mais meus olhos só transmitem informações luminosas para o meu cérebro que as decodificam e… ei, peraí, onde você vai? Eu ainda nem falei sobre a solidão do ser humano nas grandes cidades e…

Capí­tulo Dezoito – Bilhetes

quinta-feira, 15 maio 2003 § Deixe um comentário

“Mãe,
eu queria te dizer que a geladeira tá vazia, o gato tá estranho (acho que ele tá doente), eu preciso de dinheiro pra comprar umas roupas e o pai ligou dizendo que esse mês a pensão vai atrasar, já que você nunca tá em casa eu tô deixando esse bilhete mesmo que agora eu tenho que sair
beijos, te amo”

“Vítor Augusto, meu filho, se a geladeira tá vazia e você não tem dinheiro a culpa é tua, que não arranja emprego e fica em casa o dia inteiro comendo que nem um porco e se o gato tá estranho é por que ele não tem comida, ontem dei o resto daquela ração com sabor de rato (aliás, onde que você achou ração com sabor de rato? eu nunca tinha visto…)
Agora, pára de dizer que me ama! Se eu te pago um psicanalista é pra ele acabar com esse teu complexo de Édipo, porra! Ai, desculpa, não queria escrever porra, eu queria escrever pôxa. Xi, escrevi de novo… Ah, deixa pra lá. Se o inútil do teu pai ligar, diz pra ele que se a pensão atrasar mais um dia eu processo ele e tiro cada centavo que ele ainda tem. Ora, como ele acha que eu pago os cursos da tua irmã?”

“Mãe,
Você sabe muito bem que tá dificil arranjar emprego pra alguém sem experiência como eu. E que raio de ração sabor rato é essa? A ração do gato tá naquele pote menor em cima da geladeira e é sabor peixe, eu hein…
E pára de uma vez por todas de dizer que eu tenho complexo de Édipo! O doutor já disse que eu não tenho nada disso, que é coisa da tua cabeça. Disse até que era pra marcar uma consulta pra você. O pai ainda não ligou. Beijo

“Vítor Augusto, seu desocupado, eu sei que é dificil arranjar emprego pra alguém sem experiência, mas alguém com 32 anos de idade sem experiência, não dá, né?
E a ração do gato era aquela que tava na despensa, uma caixinha com um desenho de rato, nem vi qual era a marca. Oras, leva o gato no veterinário e pára de me encher.
Depois liga pro teu pai e diz que a tua irmã quer o dinheiro logo. Ela disse que precisa muito, tava até chorando por que a mensalidade tava atrasada, vê se pode! Quer dizer, eu não vi ela chorando, mas devia estar, por que os olhos dela estavam bem vermelhos.
E aquele idiota do Dr. Estevão não sabe de nada. Amanhã mesmo eu te troco de psicanalista.”

“Mãe, você deu veneno de rato pro Aristóteles! Ai, caramba, tô indo agora pro veterinário”

“Mãe, o pai já me mandou meu dinheiro? O pessoal tá dizendo que vai me matar, quer dizer, me expulsar do curso”

“Vítor Augusto, como é que eu ia saber que aquilo era veneno de rato? E Ana Carolina, o seu pai tá fugindo de mim que nem o diabo foge da cruz, não encontro ele em lugar nenhum. A propósito, alguém sabe onde tá meu colar de ouro? Eu vou à uma festa hoje à noite e não acho ele de jeito nenhum”

“Mãe, o gato morreu. Custava ter lido o que tava escrito na caixinha? E eu não vou mais à psicanalista nenhum! E pergunta pra Ana quando é que eles vão apresentar alguma coisa naquele curso de teatro dela, que eu tô doido pra ver… hehehe…”

“Vítor, seu idiota, você sabe muito bem que eu tenho medo do Paulão palco. E mãe, eu preciso do dinheiro até às oito, se não…”

“Minha filha, onde é que eu vou arranjar quinhetos reais até às oito? Eu vou lá reclamar, eles cobram os olhos da cara e ainda não aceitam atraso? Se ao menos seu irmão tivesse um emprego decente…”

“O quê?! Se eu tivesse um emprego eu nunca ia dar dinheiro pra essa menina comprar, quer dizer, pagar esse “curso”. Aliás, o pai ligou disse que não vai dar dinheiro nenhum pra filha dele se envolver com essas coisas. Foi o que ele disse.”

“Mas o seu pai é um ignorante mesmo, ele pensa que os atores são uns indecentes, é? Pois ele vai ver só uma coisa!”

“Mãe, ligaram do IML, disseram que era pra ir lá. Urgente”

“Mãe, o seu advogado ligou, diz que já tá preparando a papelada pro processo do papai. E ligou a secretária do novo psicanalista que você me arranjou. Eu não vou! Também já ligaram do cemitério, disseram que o local tá pronto para o velório.”

“Vítor, acredita que na delegacia disseram que não foi um assaltante que matou tua irmã, que foi um traficante, um tal de Paulão? Meu Deus, o que esses safados queriam com a minha filhinha?! Desculpa as lágrimas no bilhete. Te vejo no velório.”

Onde estou?

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