Capítulo Catorze – Quando Nada Mais Resolve…

quarta-feira, 30 abril 2003 § 1 comentário

Um homem entra pela porta, meio sem jeito, nunca acreditei nessas coisas, não, faz questão de enfatizar. A mulher do outro lado da mesa se limita a dizer com um sorriso enigmático:
-Ninguém nunca acredita… mas sempre querem a minha ajuda.
Ele senta na cadeira com todo o cuidado do mundo.
-Então, o que te fez procurar a minha ajuda?
-É… nem sei como dizer isso… Bem, eu nunca fui nenhum galã, como a senhora pode ver, mas já tive algumas mulheres na minha vida. Mas ultimamente a coisa tá feia, se é que você me entende…
Ela apenas balança a cabeça sem muita vontade, depois de dezessete anos ouvindo os mais estranhos e banais problemas, já não tem muita paciência pra gracinhas.
-Enfim, eu queria saber se a senhora poderia me ajudar.
Humpf! Sempre a mesma ladainha. Ela se levanta e sai pela porta atrás dela. O homem fica sozinho na sala, olhando curioso todos os símbolos, cores, crenças. Cinco minutos depois a mulher volta com um pequeno frasco com um líquido vermelho:
-Aqui. Uma gota por dia na nuca e pronto.
Ele estendeu a mão e agarrou o frasquinho como se fosse sua última salvação, nem prestou muita atenção ao que ela disse.
-Uma gota só por dia, ouviu bem? Nem mais, nem menos.
-Muito obrigado! A senhora não sabe como eu fico feliz. Quanto eu lhe devo?
-Nada, a primeira visita é grátis.
-Jura? E o líquido, – olhou atentamente o conteúdo dentro do frasco quando disse isso e poderia jurar que viu algo muito estranho, mas não sabia explicar bem o quê – é de graça também?
-Também. Aproveita esse dinheiro pra comprar umas roupas melhores…
Ele achou melhor não discutir e saiu agradecendo efusivamente.
-Próximo!
Dois meses e setenta e duas gotas depois ele volta nervoso porta adentro:
-Sua maluca! – gritou e mostrou o frasco meio vazio na mão – sabe o que essa poção do demônio ou seja lá o que isso for, me causou?
-Calma lá! O que houve? Não funcionou?
-Não, não é isso, funcionar, funcionou. Naquela mesma semana uma colega de trabalho começou a me olhar diferente, mas ela não é lá essas coisas… Então eu resolvi usar uma gotinha a mais, só pra ver se atraía algo melhor…
-Você o quê?! Você é que tá maluco! Eu disse uma gota! Uma gota! Nenhuma a mais, nenhuma a menos! Uma gota! – se as pessoas prestassem atenção ao que ela diz… – Mas afinal o que aconteceu de tão grave?
-Acontece que agora eu não tenho mais sossego… Elas vivem o dia inteiro atrás de mim! Eu não aguento mais…
-E não era isso que você queria?
-Era, mas não achei que ia ser tão ruim assim!
-Tá, tá, pára de reclamar! – Ela saiu e voltou com um outro frasco, dessa vez com um líquido azul dentro – isso aqui deve resolver.
Ele estendeu a mão pra pegar o frasco, mas ela não deixou.
-Esse aqui vai te custar um pouco caro.
Contrariado, pagou o preço salgado que ela exigiu:
-E ninguém mais vai me querer?
-Isso depende de você.
Ele não entendeu bem, mas tudo bem.
-E toma mais cuidado com teus desejos da próxima vez.
Ele saiu. E dessa vez não agradeceu.
Humpf! Sempre a mesma ladainha, ela pensou consigo mesma.
-Próximo!
Contam que um tempo depois alguns pedestres viram um homem correndo de uma bando de mulheres enlouquecidas, segurando um frasco, com algo vermelho dentro, na mão, feliz da vida. Vai ver ele não se adaptou a sua velha vida de rejeitado. Mas isso eu nem sei se é verdade…

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