Capítulo Nove – Pra além do surreal ou Eu já tô ficando muito convencido

domingo, 23 março 2003 § Deixe um comentário

Vinha andando pela rua escura noturna soturna, pensando na vida e nos elogios recebidos e em todo mundo que tá me mandando trabalhar. Pensando também no que vai dar este texto.
Já que o Joãozinho há tempos não aparece por aqui e o psicanalista me mandou fazer um texto por livre-associação. Logo eu que nunca dei muito crédito pra velhos tarados? Me disseram que andam me dizendo muita bobeira e que não devo prestar atenção no que me mandam. Obedeci e não segui o seu conselho.
Os dois se transformaram em três quando surgiu mais um monstro de duas cabeças na minha dupla personalidade. Mas isso não tem nada a ver com o resto. De tudo.
Contudo soube que às vezes coisas que parecem sem sentido podem fazer muito sucesso, desde que tenha algumas cenas de sexo e/ou violência e que tudo isso tá na natureza humana, foi o que me disseram.
Isso tudo eu pensava na rua e até que o texto que me surgia na cabeça tava ficando bom, apesar da preguiça crônica e genética que me acompanha desde o nascimento, mas um bigorna veio do céu e me atingiu. E como já não me bastasse esse sofrimento ainda me disseram que preciso arranjar um estilo próprio. Ces’t la vie.

(esse é um texto ficticio, qualquer semelhança com a vida real me avise que eu sempre quis ver uma bigorna cair na cabeça de alguém)

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Capítulo Oito – América uma ova!

sexta-feira, 21 março 2003 § Deixe um comentário

Aquele cara e seu amigo com muito esforço conseguiram uma passagem pra embarcar no Titanic e ir à América viver bem como lhe disseram. Infelizmente (ou felizmente?) era um jogador compulsivo e num jogo de pôquer quando já estava sem nada resolveu apostar as passagens do navio. Perdeu e não pôde embarcar, ficou um tempo se lamentando enquanto trabalhava no porto onde soube que o navio tinha afundado…
Como era muito esforçado e depois de ter perdido as passagens nunca mais jogou, logo conseguiu um dinheiro e abriu um comércio.
Viveu até os oitenta e poucos anos quando morreu afogado na sua piscina.

Capí­tulo Sete – O Capítulo Sete nunca existiu

quinta-feira, 20 março 2003 § Deixe um comentário

Capítulo Seis – A não-tão-fantástica fábrica de chocolates

terça-feira, 18 março 2003 § Deixe um comentário

Quando todos ficaram sabendo da novidade foi um alvoroço, praticamente não se encontravam mais barras do chocolate que estava fazendo uma promoção incrível: quem achasse o bilhete dourado poderia fazer uma passeio pela misteriosa fábrica.
Um garoto comprou muitas barras, tantas quantas sua mesada permitia. Mas não achava nenhum bilhete dourado e eles já estavam acabando! Só restava mais um.
Afinal um garoto paraguaio achou e o garoto ficou muito triste, principalmente depois de descobrir que aquele era falsificado e que o verdadeiro tinha sido encontrado pelo seu vizinho esquisito que vivia com o avô pra cima e pra baixo.
E pra piorar a situação seu pai foi demitido. Ao procurar emprego na fábrica de chocolate, que agora pertencia ao loirinho esquisito, não passou no exame médico, por que tinha mais de um metro e dez, não era verde nem sabia cantar “woompa loompa dumpa dee doo”.

Capítulo Cinco – Se eu fosse um bicho, eu seria um tartaruga.

sábado, 15 março 2003 § Deixe um comentário

A única coisa que nunca muda em mim é essa vontade de sempre mudar. Paradoxo ou mentira?
A vida não é bela. Nem totalmente injusta. Nem tudo é preto ou branco, há os vários tons de cinza. E todas as outras cores, inclusive aquelas que você não vê.

Coerência?

Com a trilha sonora certa, até uma criança brincando na praia pode parecer uma cena triste. Alguém que já morreu sempre parece meio triste quando aparece na tv, mesmo que estivesse alegre. Algumas tartarugas vivem quase duzentos anos. Existem alguns insetos que vivem somente algumas horas. Os alcoólicos anônimos vivem um dia de cada vez. Tem gente que sobrevive com menos de um dólar por dia. Eu deixei de viver já faz um tempo. E todo dia nasce mais gente do que morre. Mas todo mundo morre.

Eu acho.

A morte é a única certeza na vida? Eu diria que a única certeza na vida é estar vivo. Outra certeza é que todo mundo nasceu. Todo mundo respira, todo mundo come (apesar de uns malucos que dizem fazer fotossíntese), todo mundo bebe. Todo mundo defeca, todo mundo urina. Todo mundo pensa (pensar coisas inteligentes já é querer demais), todo mundo tem um coração batendo.
A vida é muito mais previsível do que me ensinaram.

Eu não precisava escrever tanto. Precisava sim. Dormir também seria legal. Ou escovar os dentes. Ou escovar os dentes e depois dormir. E daí que são nove e meia? Já dei comida para os cachorros mesmo. Pra gata, não, eu não sei onde ela está. Gente pelada é uma coisa engraçada. Eu queria ficar pelado, mas tenho vergonha. Nos meus sonhos às vezes eu estou pelado. Só eu e ninguém parece notar, mas mesmo assim fico com vergonha. Freud explica. Eu não, nem quero saber.

As idéias começam a falhar. A ignorância de vez em quando faz bem. A sabedoria também. Rimar é legal. Então pega no… Êpa! Sem baixaria!
(Não se ofenda, eu me arrependi desta última frase.)

Adolescente só pensa em sexo e música. Talvez em fazer sexo ouvindo música. Alguns pensam em se matar também. E a morte já apareceu demais neste texto. E hoje está um péssimo dia pra se matar. Está ensolarado lá fora e eu ouço passarinhos cantando! Isso quando os carros param de passar.

Isso tudo não faz muito sentido, então fico pensando como poderia acabar, por que eu não queria acabar de repente. As tartarugas podem se esconder dentro do próprio casco. Eu tenho que usar o meu cérebro. Pra inventar algo pra me esconder, não pra me enfiar dentro. Sentir culpa é foda.

E a vida não é boa nem má. Mas segue em frente. Então deixa eu ficar de mau-humor, nem que seja por enquanto. Só.

Capítulo Quatro – Alívio

sexta-feira, 7 março 2003 § Deixe um comentário

Ele ajeita a camisa suja, ou melhor, desajeita, pra parecer ainda mais necessitado. O “mercado” anda muito disputado e ele sabe que tem que atingir o coração das pessoas, fazer elas não raciocinarem muito. Ainda que isso às vezes possa ser um problema, se vierem à tona sentimentos de desprezo ou mesmo ódio.
As portas abrem e ele sente um frio na barriga, apesar de não ser a primeira vez. E entra. Espera o vagão entrar em movimento e começa o mesmo discurso, pedindo licença e sua atenção, por favor, algumas vezes, talvez pra tomar coragem. O que pouco adianta, praticamente só as crianças lhe dão atenção. Aquela história é nova pra elas, é diferente, não é como tantas outras tantas que vão ouvir até poderem ignorar um pedinte num trem do subúrbio.
Algumas poucas moedas rolam vacilantes até a mão do velho (ao menos na aparência) homem. As portas abrem novamente e ele sente alguém esbarrar, todo o dinheiro voa no chão, os pivetes apanham e saem correndo com inacreditável habilidade. Os passageiros sentem dó mais uma vez do homem, mas fingem não ver, é mais fácil assim. Tudo o que ele pode fazer agora é acompanhar a trajetória dos garotos e lamentar. Lamentar.
Ele ouve outro trem se aproximar, o que é um sinal de que ficou parado ali na plataforma um tempo considerável, os trens no subúrbio sempre se atrasam. Dá meia volta e admira a força e tamanho da máquina que se arrasta lentamente, como que cansada da vida. Ao menos alguma coisa tinham em comum. Ele sentiu vontade de abraçar o trem e desceu a plataforma.

Naquele final de tarde os trens se atrasaram mais do que o normal.

Capítulo Três – História de amor ou alguma outra disfunção hormonal

domingo, 2 março 2003 § Deixe um comentário

Era um dia de sol. Domingo, eu acho. Domingo de sol, ruas vazias, corações sem rumo, ou algo brega assim.
Ela andava despreocupadamente preocupada, como sempre, desde que foi abandonada. Não era o que o ex dizia. Foi quando ele apareceu. Do nada. E ela quase caiu aos pés dele. Literalmente. Já ia xingar o apressadinho quando viu o rosto mais lindo de todos, ou um clichê qualquer desses.
-Tá fugindo de alguém?
-De mim mesmo, acho.
-E se eu te protegesse? – E abriu o sorriso mais lindo do mundo, ou algo mentiroso assim, como ela diria tempos depois.
E em frente àquela casa, no local em que se esbarraram, naquela tarde deram o primeiro beijo.
Por isso (ou pelo preço) compraram aquela velha casa em suaves prestações. Por que toda história de amor que se preza tem que ter prestações. Apaixona-se desesperadamente, ama-se sem perceber quando e tudo acaba aos poucos. Foi só com eles?
Me disseram, o estopim foi uma toalha molhada na cama. Ela que deixou. Ou outra coisa que é o contrário do comum. Me disseram também um algo voou pela janela.
Trocaram o vidro quebrado. O coração, não. E só sobrou uma placa pro fim desta história: vende-se esta casa desesperadamente. Ou qualquer outra coisa incomum escrita assim.

Onde estou?

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